Skip to content

Voltar ao livro

Capítulo XII. Os bens do espírito

6. Partilha dos bens.

Há dois tipos de bens: os que, só podendo pertencer ao indivíduo, são incapazes de ser partilhados, e os que só têm sentido se são comuns a todos, que se formam ao serem comunicados e crescem ao ser partilhados. Estes são os bens espirituais. É quando os espalhamos que os recebemos. O indivíduo não pode adquirir deles nenhuma posse particular de que possa ter ciúme; pois só pode saboreá-los renunciando a si mesmo, aceitando participar de uma realidade que o alimenta e o ultrapassa. Assim, é pelo mesmo ato que os recebemos que devemos dá-los; e, quando nos libertamos das servidões do amor-próprio, aproximamo-nos imediatamente das outras pessoas e provocamos nelas a mesma libertação. Ao deixarem, como nós, os bens que até então buscavam reter, elas penetram conosco num mundo novo em que a mesma riqueza inesgotável é oferecida a todos: só podemos desfrutar dela numa espécie de generosidade mútua.

Ao contrário, aquele que persegue o seu próprio bem certamente o perde: é, portanto, um grande mal querer possuir um bem que seja só nosso. E todos os bens que desejamos devemos buscar partilhá-los, sentir necessidade de partilhá-los e senti-los crescer por essa própria partilha. O bem que fazemos ao próximo é o único meio que temos de fazer bem a nós mesmos.

Os bens verdadeiros não diminuem quando passam de mão em mão: ao contrário, sempre se multiplicam nas mãos de quem os possui, rejuvenescendo sem cessar a atividade que os produz, que deles desfruta e os comunica. Os bens espirituais não têm dono; eles são de quem os sente e de quem os ama, são de quem os toma. E o uso que se faz deles, em vez de gastá-los ou destruí-los, é um ato de amor que os faz sempre renascer. Vê-se, portanto, que quem dá é o único que possui e que, ao dar, não cessa de receber. Assim se explica o paradoxo segundo o qual os bens que recebemos são sempre proporcionais aos que possuímos. Assim se explica esta palavra: “Àquele que tem, mais lhe será dado; e àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado.” É que não há diferença entre ter e dar, nem entre o dom que se recebe e o que se faz. Mas as leis do mundo eterno são as mesmas leis do mundo em que vivemos: o que dá a felicidade aqui embaixo a dá eternamente, e o que torna infeliz aqui embaixo nos torna infelizes eternamente.

A consciência de si — 6. Partilha dos bens. has loaded