Capítulo XII. Os bens do espírito
5. Os bens sensíveis.
É porque participamos do Ser que tendemos à sua perfeição soberana. Mas é porque somos seres finitos e materiais que tendemos a bens sensíveis e perecíveis. Assim, é natural que nos dirijamos a Deus com todas as nossas faculdades e aos prazeres com cada uma delas. Mas então não há um só bem sensível que não seja, ao mesmo tempo, imagem e limitação de um bem eterno. Assim, ao reconduzi-lo à sua fonte, em vez de diminuí-lo ou sacrificá-lo, só poderemos ampliá-lo e penetrar nele.
Muitas pessoas que gostariam de se prender a um grande interesse eterno sentem tédio diante dos objetos que parecem destinados a realçar o nosso gosto pela vida temporal: a ambição, a riqueza, o jogo, o luxo, a indústria ou o amor. Melhor do que outras, elas poderiam dizer que bocejam a vida e que a sua alma lhes parece tanto mais vazia quanto maior a sentem. Mas é porque ela está vazia que lhes parece grande: elas não têm força bastante para encontrar a verdade que, só ela, poderia preenchê-la. Ora, o que caracteriza a verdade é precisamente envolver de luz as menores coisas e dar um caráter divino às tarefas mais mesquinhas e mais entediantes.
Assim, é um erro pensar que é preciso — ou, como tantas pessoas, absorver-se na busca dos bens materiais, considerando os bens espirituais como quimeras ou como o luxo das horas de lazer —, ou, ao contrário, se prender por inteiro às coisas eternas, desprezando e humilhando a nossa vida sensível, que se torna a marca da nossa miséria. Nenhum ser humano jamais tem uma escolha assim a fazer. O que faz a beleza e o mistério da nossa vida é que ela não cria nenhuma diferença visível entre os servidores do corpo e os servidores do espírito puro. Eles cumprem as mesmas pequenas tarefas, atendem do mesmo modo às humildes necessidades do organismo, vão e vêm aos mesmos lugares e convivem com os mesmos seres: mas, para uns, é a ação exterior que é o objetivo e o desfecho de todos os seus pensamentos; para outros, ela não é senão o instrumento e o sinal: os gestos materiais deles parecem fundir-se e se esvanecer; a um olhar puro, eles só deixam transparecer o sentido interior que os ilumina.
Os prazeres dos sentidos são uma figura das alegrias eternas; o conhecimento do mundo material é uma figura do conhecimento contemplativo; a beleza carnal é uma figura da beleza incriada; o amor humano é uma figura do amor de Deus. Por isso, não se deve desprezar esses diferentes bens, nem pretender opô-los aos bens verdadeiros. É preciso desfrutá-los segundo a sua natureza, isto é, com simplicidade e inocência, mas não sem reconhecer o que há neles de turvo e de imperfeito, nem sem admirar os dons que põem ao nosso alcance, nem sem transfigurá-los de maneira a reencontrar, em cada um deles, um apelo a alegrias mais puras.