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Capítulo XII. Os bens do espírito

4. A escada de Jacó.

A escada de Jacó representa esse vaivém pelo qual subimos às coisas espirituais e descemos às materiais. A queda não é uma primeira e única falha da qual passamos a vida inteira tentando nos resgatar: pois não cessamos de cair e de nos levantar. São os nossos dois passos gêmeos. Quando nos prendemos aos bens materiais, o seu peso nos arrasta. Assim que o espírito se liberta deles, recomeça a sua ascensão. Mas é o mesmo movimento que, ora, nos leva acima de nós mesmos, ora nos reconduz a nós mesmos. É o mesmo amor que me prende a mim mesmo, se retenho o seu ímpeto, e que me une a Deus, se consinto em segui-lo.

A mesma força sustenta o vício e a virtude. Diz-se até, às vezes, que as virtudes são mais belas quando contêm em si vícios que refreiam, mas que lhes dão mais acuidade e mais viço. Acontece que os vícios abalam profundamente a atividade, rompem a indiferença, que é uma espécie de sono ou de morte da consciência, e comunicam à alma um vivo impulso que, assim que ultrapassa os limites em que o egoísmo o aprisionava, torna-se o princípio de todas as virtudes. Não há em nós potência alguma, por mal aplicada que esteja, que seja preciso destruir e que não se possa converter em bom uso. Quem carece de ira carece, para superar os obstáculos, de uma força que é preciso pôr a serviço da sabedoria. Quem carece de desejo carece do impulso essencial que o atrativo do bem dá à atividade. Quem tem ingenuidade demais também carece de delicadeza e de penetração. E há o mesmo princípio na raiz da coragem e da ira, da inteligência e da astúcia, do amor e da volúpia.

O maior perigo da virtude é nos dar a vaidade da virtude, de tal sorte que a virtude pode separar em vez de unir, e a alma, ao se elevar, já começar a descer. Assim que os bens espirituais se oferecem a nós, só podemos perdê-los se quisermos que o amor-próprio tire prazer deles. A fonte da atividade interior se seca assim que o amor-próprio a capta para fazê-la servir à sua glória. Assim, o indivíduo não pode buscar tirar proveito, sem corrompê-los, dos únicos bens que merecem ser desejados. Assim que se pode observar na virtude esse ciúme estreito de si mesma, que a leva a recolher-se numa espécie de orgulho secreto, é sinal de que o amor-próprio já a venceu.

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