Capítulo XII. Os bens do espírito
3. Carne e espírito.
A nossa vida está na junção do corpo e do espírito. Ela pende ora para um, ora para o outro. E da escolha que faz depende a nossa luz e a nossa felicidade. Mas corpo e espírito se ajustam e se correspondem: cada um deles pode prolongar o impulso que recebe do outro. O pensamento exerce às vezes a sua própria atividade numa espécie de deleitação interior que é uma verdadeira concupiscência do espírito. Do mesmo modo, o olhar pode abarcar o mundo numa contemplação tão pura e tão desinteressada que parece quase imaterial.
A vida é um movimento que deve nos fazer passar, por graus, da inocência do instinto à inocência do espírito. Mas, para isso, é preciso que a reflexão liberte em nós uma potência de iniciativa que pode engendrar todas as curiosidades e todas as perversões da inteligência e da carne antes de se resolver numa atividade que a ultrapassa e à qual ela deve consentir. A consciência rompe a unidade da vida. Enquanto essa unidade permanece rompida, nos deleitamos nos meandros infinitos da análise interior, desdobrando sempre de novo o que o primeiro ato da reflexão já havia desdobrado: e isso é um jogo que não cessa de aguçar o nosso amor-próprio. Mas esse desdobramento deve nos conduzir a uma unidade mais perfeita; ao superar-se, esse amor-próprio deve nos permitir descobrir em nós um ser espiritual que, pelo conhecimento e pelo amor, é capaz de unir-se a tudo o que é.
Assim, há em nós uma espontaneidade egoísta e carnal que cabe à vontade refrear, e uma espontaneidade espiritual e divina diante da qual a vontade deve se apagar. Pois a ação da vontade é ao mesmo tempo muito poderosa e muito modesta: consiste em opor um obstáculo a cada uma das formas da atividade espontânea ou em lhe deixar livre curso. Todo o movimento da consciência preenche o intervalo que separa o instinto, que antecede a vontade, da graça que a ultrapassa.
A carne e o espírito não são dois adversários que se enfrentam com as mesmas armas. A matéria impõe ao espírito uma espécie de violência; mas o espírito, ao penetrar a matéria, amansa-a e a ilumina; faz dela uma serva voluntária e atenta, feliz por descobrir a sua vocação e cumpri-la. Nasce-se carne e torna-se espírito. Nasce-se velho, prisioneiro de uma longa hereditariedade e de um corpo cujo escravo somos, a gemer. E a juventude pede ser conquistada por uma libertação gradual das servidões do corpo e da hereditariedade, das quais a morte nos despoja de um só golpe.