Capítulo XII. Os bens do espírito
2. A alma e o espírito.
A alma e o espírito estão sempre juntos, mas mantêm um diálogo perpétuo e nunca chegam a se confundir. A alma é individual; mas é o mesmo espírito que está presente a todas as almas. A alma é mediadora entre o corpo e o espírito; é uma espécie de corpo espiritual que permite ao espírito levar a luz até a matéria e à matéria levar até o espírito a emoção e o frêmito.
Portanto, só a alma é dotada de consciência; pois a consciência nasce da luta entre a carne e o espírito. E a alma pende alternadamente para os dois lados; ora escuta todas as vozes da natureza, ora parece iluminada por uma luz sobrenatural. A consciência reside nessa oscilação que ela nunca interrompe, nessa iniciativa que a impede de se fixar, nessa escolha que ela renova indefinidamente.
O corpo não participa da consciência; está abaixo dela; para ela, não é senão um objeto. Mas é a consciência que participa do espírito, e não o espírito da consciência: ele a ultrapassa; é o princípio que a ilumina; e não se pode dizer do sol, que ilumina todo o resto, que ele próprio seja iluminado. Ora, sabemos bem que a nossa consciência é mesquinha e miserável, que ela não cessa de acolher a luz, mas que jamais tem abertura bastante para deixar penetrar nela tudo o que o espírito não cessa de lhe oferecer. A consciência é uma espiritualidade dividida e mesmo dilacerada: é que o espírito está apertado na alma, onde o indivíduo o capta dentro dos seus limites; mas ele aspira sempre a dilatá-los e a reencontrar a unidade perdida.
Então acontece que, nesse excesso, a consciência sucumbe, como nos movimentos da inspiração ou da graça; é que ela reúne então todos os seus efeitos até então dispersos. Assim o entendem também todos os que falam da razão e fazem dela um juiz do pensamento superior ao próprio pensamento, todos os que falam de Deus e fazem remontar até ele toda a vida que anima a consciência, mas não o tumulto em que ela se debate.
Assim como o corpo está situado no espaço, a alma está situada no espírito puro. E, assim como o movimento do corpo nos revela incessantemente novos lugares, o desejo da alma nos revela incessantemente novos pensamentos. Mas não é o olhar que produz a paisagem, nem a atenção que engendra a verdade. Apenas há, entre o olhar e a luz material, entre a alma e a luz espiritual, uma conveniência tão perfeita e um intercâmbio tão sutil que a alma e o olhar acabam por já não se julgar distintos do princípio que os ilumina. Basta um pouco de obscuridade por dentro ou por fora para lembrá-los da humildade.
É a nossa limitação e a resistência da matéria que fazem da vida da alma uma luta, como da vida do corpo. Mas a vitória do espírito termina em contemplação: então a alma frui do seu repouso, que é o ponto extremo da sua atividade. Assim, a mão do artista, assim que entra no repouso, esquece os toques sucessivos que inscreveu na pureza do contorno; mas então abraça o contorno com um movimento tão fácil, tão firme e tão perfeito que experimenta de repente a alegria de uma descoberta e, ao mesmo tempo, a de uma posse.