Capítulo XII. Os bens do espírito
1. O espírito contém tudo.
Como o espírito poderia pensar um objeto que ultrapassasse a sua própria capacidade? Há, portanto, igualdade entre o volume do espírito e o volume do Todo. O que caracteriza a consciência é sempre circundar o objeto ou abraçá-lo. Tudo o que ela pode apreender deve penetrar nela. Ela não está entre as coisas; são as coisas que estão nela. Podemos pensar que elas ultrapassam um espírito finito, mas não o espírito universal, do qual ele é inseparável e de que participa sem jamais esgotá-lo. A consciência pode ser comparada a um círculo de luz que, pouco a pouco, se vai envolvendo em um círculo cada vez mais vasto. A ideia de um círculo que não pudesse ser envolvido por nenhum outro é a própria ideia do espírito universal ou da verdade soberana. É também a própria ideia do Todo; e há esta semelhança entre o Todo e a nossa própria consciência: assim como não existe nada no mundo que esteja fora do Todo, não pode haver nada, para nós, que esteja fora da nossa consciência, embora ela não cesse de se ampliar e a nossa atenção não cesse de nela fazer novas descobertas.
A consciência se assemelha à aranha colocada no centro de uma teia que a põe em contato, por fios muito sensíveis, com todos os pontos da periferia. O conhecimento é essa teia que procuramos estender sobre a totalidade do tempo, tecendo-a. Por isso, o conhecimento, que nos reúne ao Todo, nos dá a alegria de participar da sua perfeição: a infinitude lhe é inseparável, e nada, em princípio, pode lhe escapar. É mesmo impossível ter consciência de si se se procura apreender o próprio ser isoladamente: conhecer-se é inscrever-se no Todo, é multiplicar com ele relações que nos revelam todas as nossas potências.
A consciência não é, portanto, um mundo fechado que se bastaria a si mesmo. Ela recebe, aliás, o feixe de luz que a ilumina; mas cabe a ela não deixar que ele se perca e regular o seu uso. Ela faz reinar em nós a lei que reina no universo, que se volta contra nós assim que a desprezamos e fora da qual todos os atos que realizamos são frívolos e ineficazes. Pois não há pensamento, nem emoção, nem acontecimento que não exprima a nossa ligação com o Ser total e que, ao mesmo tempo, não se incorpore ao nosso ser pessoal para formá-lo. Se tentamos confiná-los nos limites do eu, o nosso amor-próprio se fortalece, a nossa atividade é refreada, a nossa inocência é alterada. Só a ideia de uma consciência universal e desinteressada, da qual somos instrumentos, recoloca cada coisa no seu lugar e dilata indefinidamente o nosso eu ao pedir-lhe que se afaste sempre mais do centro de si mesmo.
Na vida espiritual, o indivíduo deve superar-se sem cessar para que todas as suas ideias, todos os seus sentimentos, todos os seus atos não deixem de associar ao seu próprio destino o destino da humanidade e o do universo. Assim, quem reza diz: Pai nosso, e não: Meu Pai, tanto é verdade que o espírito, superando todos os estados e todos os desejos da consciência separada, estende naturalmente a sua atenção e o seu amor sobre a totalidade do mundo.