Capítulo XI. A morte
10. Entrar na eternidade.
“Pensas tu, pergunta Platão na República, que uma grande alma, que leva o seu pensamento a todos os tempos e a todos os seres, considere a vida do ser humano como algo importante?” É que a morte só interessa ao amor-próprio, enquanto a inteligência, que dela nos desprende, abarca todo o universo e recoloca o indivíduo numa ordem eterna.
Mas a morte nada muda na ordem eterna. Ela só tem importância para o indivíduo. Ela só é dilacerante para a parte finita e mortal dos seres que morrem ou daqueles que a eles estão unidos. Ela lhes tira a fruição do que neles havia de perecível, mas de tal maneira que a ideia dessa privação é capaz de afetá-los, e não a sua realidade. Pode-se dizer também que ela termina a sua existência ou que a cumpre. E o medo que dela temos é uma espécie de medo de nós mesmos, um medo do ser que nos demos.
Ao olhar a morte como um dos acontecimentos que fazem parte da nossa vida, o nosso pensamento, que é seu espectador, não deve deixar-se perturbar: pois, ainda que esse acontecimento nos aconteça, isso não pode atingir o pensamento, que é a parte mais pura de nós mesmos. Ele não sofre o destino transitório dos objetos que ilumina; ao contrário, não pode contemplar nada que não esteja consumado: e a morte é o único meio que lhe permite realizar a própria vida e possuí-la.
O tempo só corre para nós; ao quebrar a nossa vida temporal, a morte parece interromper a fruição individual que tínhamos do ser eterno; mas é o contrário que é verdadeiro: no momento em que percorremos a nossa carreira no tempo, a morte permite ao pensamento reconhecer-lhe a unidade e dá-lhe lugar na eternidade. A consciência que tínhamos de nós mesmos e a que tínhamos do Todo não cessavam de se opor durante a vida: a morte as reúne.
Muitas pessoas se deixam seduzir pela ideia de uma perfectibilidade indefinida da nossa natureza e imaginam uma sequência de renascimentos que permitiria à criatura caminhar em direção a um deus que recuaria sem cessar no futuro. Mas Deus envolve em si, no presente eterno, todas as existências possíveis. É na terra que cabe a cada ser descobrir a sua vocação e realizar a sua essência. Ele passa a vida a escolher a si mesmo, mas frui eternamente da escolha que fez. Não se pode sequer dizer que ele sofra alguma vez por ter feito uma má escolha: pois não é sofrer ser privado de certos prazeres que se começou por desprezar. No sistema das essências há uma hierarquia; mas cada essência fixa ela mesma o seu lugar e realiza a sua própria perfeição no lugar que escolheu: esse lugar só lhe é revelado com certeza na morte.