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Capítulo XI. A morte

9. Morte e solidão.

A morte é um passo que sempre se dá sozinho. O ser que morre se recolhe na solidão e rompe todos os laços que o uniam ao mundo sensível. Melhor do que o solitário mais perfeito, ele reduz à sua pura essência todos os seres que amou, para levá-los consigo pelo pensamento e pelo amor, para o mundo espiritual no qual parece que vai penetrar e no qual, talvez, já tinha a felicidade de habitar. Quem, no momento de morrer, só sente um imenso dilaceramento não conheceu esse mundo, do qual o outro não é senão o invólucro, e a própria morte não bastará para lhe revelar esse mundo.

Mais do que os sofrimentos do corpo, que no entanto só nós carregamos, a morte nos reduz às nossas próprias forças. E, se ela nos julga, é nessa parte secreta de nós mesmos que ainda levamos conosco quando tudo vem a nos faltar. Já nos sofrimentos que não podem ser partilhados, as queixas dos que procuram consolar-nos nos fazem sentir melhor o quanto estamos separados deles. Mas isso é muito mais verdadeiro da morte. De que podem servir tantos gemidos que parecem querer reter-nos no mundo que deixamos, quando seria preciso começar a fazer-nos cortejo nesse mundo invisível em que todos os seres entrarão um dia?

Há até duas espécies de solidão cuja extremidade a morte nos revela: há essa solidão individual de um corpo pesado de cansaço, que sucumbe sob o fardo da sua tarefa e da sua pena, cujo movimento se torna dolorosamente mais lento e que sente a iniciativa lhe escapar. A vergonha de um corpo ao mesmo tempo tão sensível e tão fraco e que, no momento em que vai cessar de agir, já não é senão uma presença impotente leva todo ser que vai morrer a esconder-se num buraco, para ali terminar tranquilo e sozinho.

Mas a morte consuma uma outra espécie de solidão. Pois, se ela nos desprende do nosso corpo, ela fixa, com todos os outros seres — e antes de tudo com os que nos cercam no leito de morte —, as nossas relações eternas. Ao abolir todos os obstáculos e todas as separações que a matéria nos opõe durante a vida, ela dilata e povoa o nosso ser interior como o faz, já nesta vida, a solidão do espírito. Esta já se parecia com uma morte imperfeita; ela afrouxava, sem desfazer, o laço que nos unia ao mundo visível; ela já abrigava, na vida, o morto que um dia seremos. A morte, como a solidão, ao reconduzir o espírito a si mesmo, em vez de abandonar o ser a uma vida separada e sem defesa, permite-lhe entrar numa espécie de intimidade pura com tudo o que é.

O ser humano sempre se encontra sozinho e nu diante da morte. Mas é essa solidão e essa nudez que fazem a sua grandeza. Ele só se apavora diante delas se não fez essa experiência durante a vida; mas, se essa solidão e essa nudez eram para ele realidades familiares desde muito tempo, ele reconhece, no momento de morrer, o rosto que a própria vida lhe mostrava nas suas melhores horas. Em vez de ser dilacerado pela perda das suas afeições e de sentir que elas lhe faltam, ele as reencontra tais como sempre as conheceu, isto é, como partes imperecíveis do seu ser espiritual; elas lhe aparecem numa luz mais transparente e mais pura no momento em que os testemunhos sensíveis que as exprimiam, mas que as velavam, caem como roupas.

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