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Capítulo XI. A morte

8. A morte é um cumprimento.

A morte tem um caráter de solenidade, não apenas porque abre diante de nós esse mistério do desconhecido no qual cada ser deve penetrar sozinho, nem porque leva ao último ponto a própria ideia da nossa fragilidade e da nossa miséria, mas porque suspende todos os nossos movimentos e dá a tudo o que fizemos um caráter decisivo e irreformável. Ela não é a abolição da vida; ela é o seu cumprimento. Ela dá a todos os nossos atos uma gravidade eterna ao revelar-nos de repente a impossibilidade de lhes dar o menor retoque.

Assim, preparar-se para a morte é preparar-se para a vida, não porque a vida verdadeira deva ser lançada para além da morte, mas porque o pensamento da morte deve dar a todos os atos que vamos realizar, ao livrá-los das servidões do instante, uma espécie de majestade imóvel que os eleva até o absoluto e nos obriga, por assim dizer, a contemplar de antemão o seu significado puro. É preciso, de algum modo, fazê-los entrar na morte para lhes dar a própria plenitude da vida. Enquanto se imagina poder ainda modificá-los, enquanto se olha para eles apenas como acontecimentos perecíveis que o tempo apagará, é impossível descobrir o seu verdadeiro peso: eles só o mostram no momento em que nos escapam. É a morte que nos revela esse peso, ao nos tornar atentos ao som que a queda deles faz na eternidade.

Se não produz em nós um pavor que nos paralise, o sentimento da morte iminente dá de repente à nossa vida uma pureza e uma luz sobrenaturais. É que ele nos convida a olhá-la como um cumprimento e não mais como um ensaio, como um quadro acabado ao qual o pintor não poderá mais acrescentar nenhum golpe de pincel. Dirá ele que a sua obra está morta agora que está consumada? É agora somente que ela começa a viver. Nenhum toque tem mais, para ele, aquele caráter provisório e, por assim dizer, irreal que ainda guardava enquanto ele tinha o poder de apagá-lo. A obra saiu de um mundo em que tudo se torna, para entrar num mundo em que tudo existe.

Assim, a ideia da morte já introduz a nossa vida na eternidade. A morte completa em vez de abolir. Por ela, a vida deixa de ser uma espera e torna-se uma presença realizada. Essa vida que, até então, só tinha sentido para nós vem tomar lugar no universo como o quadro que enfim se desprende da mão do pintor para tomar lugar no patrimônio da humanidade. Apenas, na morte, o quadro que cada ser humano deixa e ao qual consagrou a vida inteira é ele mesmo.

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