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Capítulo XI. A morte

7. A morte realiza o indivíduo.

Enquanto continuamos a viver, o universo está, até certo ponto, sob a nossa dependência; ele sofre a nossa marca; e pode-se até dizer que ele é a obra comum de todos os vivos. Mas, na morte, o universo os retoma; reúne e confunde nele todos os seus atos. E parece que a morte iguala todos os indivíduos não apenas, como se diz, porque os obriga a dar todos o mesmo passo, nem porque os despoja de um só golpe de todas as diferenças de fortuna e de opinião, mas ainda porque apaga esse sulco que cada um deles formara por um momento na superfície do ser e o abole sem deixar traço num abismo de indiferença e de uniformidade.

Mas isso é só aparência. É a vida que realiza entre os seres uma espécie de comunidade: o mesmo céu os abriga, o mesmo solo os sustenta, o mesmo instinto os anima; eles participam das mesmas lutas, seguem caminhos que se cruzam, e o destino particular de cada um se assemelha a um ensaio imperfeito que ainda permanece engajado na massa da gênese universal. É o seu desfecho que o fixa de repente ao interrompê-lo. A terra que cobre todos os cadáveres não faz distinção nessa cinza; mas o pensamento não confunde os mortos numa mesma lembrança. E a morte, que há pouco parecia sepultar a existência individual, é a única capaz de libertá-la: permite-nos abarcar a sua curva, agora que ela está acabada, e descobrir o seu sentido, que nos escapava enquanto ainda era possível infleti-la.

Para que um ser possa conquistar a independência, é preciso que esteja despojado de todo interesse temporal. Ora, os mortos se tornaram perfeitos solitários; estão subtraídos a toda mudança, e sobre eles a nossa ação já não tem alcance. Eles se veem reduzidos à sua pura essência espiritual, isto é, à verdade mesma do seu ser. Todas as circunstâncias perecíveis através das quais ela se formara pouco a pouco pereceram. O papel da morte não pode ser, como às vezes se crê, dar-nos uma contemplação eterna de todos os acontecimentos que vivemos: isso seria um destino terrível. Mas cada acontecimento apropriava a nossa atividade a uma situação passageira, ao passo que a morte abole a matéria de toda ação para dela desprender o sentido: assim, ela é uma libertação. Ela nos liberta do mesmo modo de todos os apegos particulares e só deixa subsistir na nossa alma a intenção do nosso amor mais puro.

A morte de alguém sempre dá acesso, no universo espiritual, a uma forma de existência única e imperecível: doravante não está no poder de ninguém aniquilá-la. Enquanto os indivíduos misturavam a vida uns aos outros, enquanto agiam uns sobre os outros, era difícil reconhecer o que pertencia em particular a cada um. Agora a separação se fez. A morte desprende os seres dessa espécie de comunidade natural em que a vida os retinha, para criar neles a independência pessoal, graças a esse perfeito desprendimento que ela produz em relação a tudo o que lhes é exterior e ao qual, por suas próprias forças, não teriam chegado.

A consciência de si — 7. A morte realiza o indivíduo. has loaded