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Capítulo XI. A morte

6. A morte cura o desejo.

A ideia da morte modera e humilha todas as ambições inerentes à vida: é impossível que, numa duração tão curta, possamos satisfazê-las todas, já que não cessam de se multiplicar, nem esgotar nenhuma, já que cada uma não cessa de se renovar e de crescer. Por isso, a morte, em vez de nos fazer desesperar da vida, conduz-nos a mudar o seu sentido. Ela deve desviar-nos dessa diversidade de desejos que nos arrastam para uma miragem impossível de alcançar. Pois nenhum objeto finito pode nos dar verdadeiro contentamento. E ele nem mesmo nos seduziria sem o tempo, em que a posse que ele nos promete recua indefinidamente. A morte tem o privilégio de reconduzir o nosso olhar dos modos transitórios da vida à sua essência atual e de convidar-nos a fruir, no presente, da sua plenitude e da sua unidade.

Já que a morte tira do desejo o seu amanhã e nos proíbe de continuar identificando o nosso destino com um progresso, é preciso que ela nos ensine a pensar que não é a viagem que fazemos, nem as etapas que percorremos, que dão à nossa vida o seu verdadeiro sentido. Pois é impossível que ela corra para algum fim que de repente viesse a lhe faltar: a vida nos revela o seu ser imperecível ao nos obrigar a abandonar todos os bens que perecem, seja a cada instante pela mudança, que é uma morte contínua, seja uma vez por todas pela morte, que não é senão uma mudança sem retorno.

A consciência está sempre na alegria se consente em fruir da eternidade mesma da atividade que a atravessa. Ao prender-se a vantagens particulares, de que a morte nos despoja de um só golpe, ela se torna solidária delas; é, portanto, ela própria que se dá a morte. Permanecendo indiferente a elas, ela já nos dá a posse desse puro movimento espiritual que deve passar pela prova do tempo para tornar-se nosso e do qual a morte só deixa subsistir a essência desobstruída.

Assim, ao quebrar o nosso futuro, a morte nos ensina a dar ao presente um valor pleno e absoluto. Ela nos ensina a exercer todas as potências do nosso ser atual, a desfrutar de todas as suas riquezas com uma simplicidade inocente que exclui o medo e a avareza. Quem pode pensar que, na perfeição de uma atividade tão confiante, percamos por negligência algum tesouro desconhecido? Será o passado? Mas o carregamos inteiro em nós, libertado apenas das misérias do pesar. Será o futuro? Mas ele se tornou uma esperança plena, e nenhum sonho vem mais decepcioná-lo. Não se deve dizer, portanto, de uma tal atividade que ela se reduz ao presente, mas que nele se concentra; ninguém pode mais desejar nada quando imagina a sua própria condição como a de uma consciência capaz de participar livremente da vida eterna.

Não se deve tentar, para enaltecer a morte, considerá-la como um meio de, ao deixar esta vida, alcançar um estado que a ultrapasse; mas o pensamento da morte é o meio de conhecer já nesta vida um estado que a morte deve confirmar, e não destruir.

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