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Capítulo XI. A morte

5. Morte e presença espiritual.

A vida espiritual é, a cada instante, uma vitória contra a morte; ela nos torna indiferentes a essa morte de todos os instantes que é a mudança; a cada instante produz em nós um novo nascimento. Viver espiritualmente é viver como se fôssemos morrer daqui a pouco, é já morrer para a vida do corpo, é entrar, já nesta vida, na eternidade.

A morte, ao destruir a vida do corpo, abole esse espetáculo visível que damos de nós mesmos aos outros seres humanos. Mas ela permite àqueles que nos amam realizar, no segredo da sua consciência, a nossa presença espiritual por um ato interior que depende apenas do amor deles. Já quando vivíamos entre eles, não era essa, para eles, a nossa única presença real? A presença corporal era o seu sinal e o seu instrumento; mas ela servia tanto para impedi-la quanto para produzi-la. Ela nos dava tanta alegria porque era, para nós, uma espécie de segurança. Mas uma presença nunca pode ser dada: só há presença — a que nós mesmos nos damos. Assim, acontece que a presença material separa os seres mais do que a ausência, ao dispensá-los — como se ela pudesse bastar para contentá-los — de realizar essa presença interior que é a obra do espírito puro.

Ao contrário, acontece também que a morte, ao destruir o ser de espetáculo que sempre somos para outro, consegue tornar-nos mais presentes ao seu pensamento do que éramos durante a vida. Ela nos revela a essência dos seres com os quais vivemos por muito tempo, mas sem percebê-los. Ela nos revela tudo o que lhes devíamos, tudo o que não fizemos por eles, tudo o que poderíamos ter tirado deles e que eles nos ofereciam, mas que não quisemos acolher. Não é preciso, pois, já que a morte doravante nos impede de aparecer e nos liberta do divertimento e do amor-próprio, que ela nos torne, por nossa vez, perfeitamente interiores a nós mesmos? A morte, em vez de mergulhar a nossa vida nas trevas, envolve-a numa luz sobrenatural.

Depois de uma ausência longa e dolorosa, a ideia do retorno é um aguilhão benfazejo e o retorno, a mais doce das consolações: é preciso ter estado separados por muito tempo para desfrutar ao mesmo tempo da separação e da reunião. Mas a morte leva esses sentimentos ao absoluto: pois a vida nos separa do Ser total e a morte nos reúne a ele. Sem dúvida, parece que a morte também nos separa dos seres que amamos; mas sentíamos, no entanto, que já o corpo nos separava deles. E, já que, na ausência material, nos aconteceu fruir mais perfeitamente da presença espiritual deles do que quando o corpo deles estava conosco, é porque a morte é o único meio que o espírito possui de realizar sempre a perfeição da presença pela perfeição da ausência.

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