Capítulo XI. A morte
4. As relações com os mortos.
Preocupamo-nos demais com os mortos. Devemos buscar a nossa salvação e a daqueles que vivem ao nosso redor: a salvação dos mortos já não nos incumbe; há até neles um sono que não temos o direito de perturbar. Basta que o que havia neles de vivo ainda esteja vivo em nós: nas partes eternas da nossa natureza, não somos apenas seus herdeiros, somos um só com eles. Mas não devemos honrar neles essa forma separada que ainda guarda uma aparência humana e que cai em pó assim que a tocamos. Não empreendamos comparar com a cinza deles o que em nós mesmos já é cinza e irá juntar-se a ela.
Não se deve, ao honrar nos mortos os mortos que um dia seremos, prestar um sutil testemunho aos vivos que somos. Honramos os mortos porque a vida deles, doravante fixada, entrou no círculo das realidades eternas. Ao vê-los subtraídos à agitação dos vivos, inclinamo-nos diante da sua majestade imóvel. Só pode haver glória para eles. Pois os vivos estão sempre no devir; não se sabe para onde tende a sua ação presente, e o seu passado parece sempre poder ser desfeito. Enquanto lhes resta o sopro, ainda têm tempo e poder de destruir todos os seus méritos. Mesmo nos vivos, só se pode honrar o que nenhum gesto futuro parece já poder alterar: ao honrá-los, já os tratamos como mortos.
Acontece também que quem honra os mortos os inveja. Invejar os mortos é querer desfrutar injustamente do repouso antes que a própria tarefa esteja terminada. É querer desfrutar da sua imobilidade com a consciência móvel de um ser vivo. Talvez se diga que esse amor da imobilidade é o amor da existência em toda a sua pureza, desprendida de tudo o que a ela se junta de perecível. Mas, mais ainda do que a imobilidade, inveja-se a glória deles e todos os testemunhos pelos quais eles sobrevivem.
Ao honrar os mortos, uns pensam defender-se contra a lembrança deles, que os perturba; mas os mortos nos deixam em paz se cumprimos com inocência a nossa tarefa presente. Eles agitam o nosso sono e paralisam a nossa atividade se nos deixamos atormentar pelo pesar de um passado irreparável; eles iluminam e sustentam a nossa marcha se sabemos associá-los à realização do nosso destino. As pessoas mais piedosas abrigam os mortos no pensamento como num túmulo vivo; têm com eles um intercâmbio espiritual em que a própria consciência se engrandece, se esclarece e se purifica.
Se a morte fixa a nossa natureza para a eternidade, ela não guarda nada de tudo o que, na nossa natureza, era perecível e só tinha uma existência momentânea. As honras prestadas aos mortos só têm sentido porque a morte os despojou de todas as suas fraquezas. A lembrança deve imitá-la: mas nem sempre consegue.
Assim, nos mortos, é menos ainda a sua lembrança que devemos honrar do que a sua ideia. Pois a lembrança lhes deixa uma fisionomia individual e material; ela ainda se deixa deter pelos seus erros e pelas suas faltas. Mas a ideia vive em nós e nos anima. Ela só deixa subsistir deles esses traços da natureza humana que lhes são comuns conosco, dos quais foram, por alguns anos, uma encarnação única e privilegiada. Então os mortos podem tornar-se verdadeiramente presentes em nós nas partes melhores e mais vivas do nosso ser. A ideia que temos deles destina-se a criar uma filiação entre eles e nós: então essa ideia desperta em nós uma luz sutil, uma vontade de agir eficaz. Ela não nos condena a esquecer o seu rosto; apenas esse rosto é purificado e embelezado; ele oferece aos nossos olhos, sob uma forma espiritual, um dos aspectos eternos do rosto da humanidade.