Skip to content

Voltar ao livro

Capítulo XI. A morte

3. A proximidade da morte.

De perto, a morte nos enche de horror porque degrada o corpo e faz dele um espetáculo que nos humilha; de longe, ela se torna grave e poética porque ela própria adquiriu uma espécie de imortalidade, porque oferece belos temas à imaginação, porque livra a vida das suas manchas e porque, enfim, pela memória, povoa o nada. A carne que há pouco apodrecia fundiu-se em cinza.

O pensamento da morte é trágico e doloroso para quem, ainda voltado para a vida, se debate e luta para mantê-la. É a maior de todas as angústias para quem não renunciou à vida, não a esgotou, mal a provou e sente a própria impotência para impedi-la de fugir. O temor de uma passagem assim nos faz desejar, às vezes, uma morte brusca que nos tire o ócio da reflexão e se pareça com um raptador que, de repente, nos leva.

São as naturezas mais delicadas que desejam uma morte lenta, para a qual se prepara e na qual a vida, progressivamente, se desfaz. Mas ainda é melhor que a vida tenha sabido adquirir, há muito tempo, uma espécie de familiaridade íntima com a morte. Naquele que penetrou a sua ideia e se preparou para suportá-la, a morte, no momento em que se apresenta, aparece como um pequeno acontecimento que reveste uma espécie de simplicidade tranquila: a morte é um apaziguamento.

Quando nós mesmos estamos muito perto de morrer, o amor-próprio dá à sensibilidade, de início, um batimento acelerado. Mas, se estamos libertos do amor-próprio, nunca entra no nosso pensamento tanta luz, nunca ele tem um movimento mais igual e mais ágil. A presença da morte faz-nos ver tudo sob sua verdadeira luz porque nos liberta de todo interesse. Ela nos revela os nossos verdadeiros sentimentos, isto é, aqueles que estavam em nós sem que tivéssemos deles clara consciência e que nos espantamos de não ter sabido tornar mais visíveis.

Assim, no momento em que se pensa que se vai deixá-la, acontece que a vida assume uma espécie de doçura luminosa. Mas como essa doçura deixaria na nossa alma algum pesar? É um dom que a morte faz à vida assim que se torna iminente; é ela que despoja os acontecimentos da vida daquele caráter tenso e doloroso que tinham para nós enquanto se realizavam e os transforma num puro espetáculo carregado de significado. E é esse espetáculo mesmo que levamos para a morte.

A consciência de si — 3. A proximidade da morte. has loaded