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Capítulo XI. A morte

2. O temor da morte.

O temor da morte é, antes de tudo, um tremor do corpo que já desaba ao pensamento do golpe que vai aniquilá-lo. Mas é sobretudo a dor extrema do amor-próprio que não se limita a sofrer alguma perda, a abandonar tudo o que crê possuir — todos os seus bens, todas as suas alegrias e até o alimento e a luz do dia —, mas que se sente, ele próprio, forçado a sucumbir, a renunciar não mais ao objeto do desejo, mas ao próprio desejo.

O consentimento à morte é às vezes efeito de um esgotamento da vida e do amor que o vivo lhe dedica. Assim, acontece que aquele que prende o pensamento às preocupações e à miséria da sua existência temporal olhe a morte com segurança; mas é por covardia e não por coragem. Há mesmo um certo desejo de morte que é o último ponto da preguiça: é o desejo da paz material. Mas esta só consegue seduzir-nos porque é o símbolo da paz do espírito, que é o contrário da inércia, que é o estado de uma atividade que frui do seu puro exercício.

Observa-se, ao contrário, uma indiferença em relação à morte em todos os que confiam na vida e uma angústia diante da morte em todos os que amaldiçoam a vida. Os primeiros, devotados à ação e à alegria, não têm tempo de pensar na morte. Eles imaginariam de bom grado que ela lhes seria tão boa quanto a própria vida. Os outros, cuja vida é vazia, preenchem-na com o temor. É conforme à ordem que estendam suas suspeitas igualmente à morte, à vida e a esse vasto sistema das coisas em que elas se associam.

Aquele que ama a vida, que frui da sua essência, que sabe que ela sempre se lhe dá por inteiro, mas que não cessa de lhe revelar novos aspectos de si mesma, não teme a morte, porque tem da vida uma posse tão perfeita que se sente capaz de levá-la consigo até as estrelas. Mas aquele que odeia a vida porque crê nada ter recebido dela teme a morte porque sabe que ela deve fixar o seu estado para a eternidade: prefere continuar sempre a gemer e a esperar.

Se soubéssemos que a nossa morte certamente deve ocorrer em tal dia determinado, em vez de aparecer como sempre possível e sempre evitável, ainda a temeríamos? Seria preciso acabar por nos preparar e aceitá-la. Mas, se a hora é incerta, o acontecimento é certo: a morte faz tanto parte da vida que é preciso dar a uma e a outra um único consentimento. Apenas, quem conhecesse de antemão o termo da sua vida viveria até lá com uma espécie de segurança; adiaria esse exame interior, esses pensamentos e essas resoluções espirituais que dariam a cada uma de nossas ações um valor absoluto, se pudéssemos realizá-la pensando que é a última.

Se tememos a morte é porque, sentindo bem que a nossa vida é um vazio a preencher, tememos sempre não ter conseguido e pedimos sempre um prazo para acrescentar o que falta. Mas isso é efeito do amor-próprio. Pois a vida é um molde que cabe a nós preencher; mas não sabemos qual é a sua grandeza. Aquele que leva a bom termo a tarefa de cada dia deve sempre esperar ver o molde quebrar-se e a estátua aparecer. Aquele que teme a morte quer conservar eternamente um molde no qual nada soube pôr: não quer ver a estátua sair.

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