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Capítulo XI. A morte

1. A meditação da morte.

É impossível traçar a menor separação entre a meditação da vida, recomendada por Spinoza, que pensa que a meditação da morte é a marca da nossa impotência, e a meditação da morte recomendada por Platão, que pensa que ela é a meditação da vida verdadeira. Pois vida e morte formam um par: só têm sentido ao se oporem; e o contrário da vida não é o nada, mas a morte. É a ideia da morte, isto é, de uma vida que se encerra, que dá ao sentimento da vida a sua extraordinária acuidade, o seu infinito poder de comoção. Logo que a ideia da morte se afasta, a vida já não é para nós senão um hábito ou um divertimento: só a presença da morte nos obriga a olhá-la face a face. Quem se desvia da morte para desfrutar melhor da vida também se desvia da vida e, para esquecer melhor a morte, esquece a morte e a vida.

É porque a nossa vida, que recomeça todas as manhãs, é encerrada pela morte e nunca mais recomeça que ela é para nós um absoluto; é preciso esgotá-la de uma só vez. E o trágico da vida aumenta ao pensar que ela recomeça indefinidamente, mas num mundo de que estamos ausentes: no que nos concerne, os dados estão lançados de uma vez por todas; se nos enganamos, é para sempre.

O nascimento, que limita a nossa vida no outro extremo, não tem para nós uma presença tão aguda: ele abre o nosso destino como uma promessa, enquanto a morte o fecha como um cumprimento. Pode-se sequer dizer que estamos presentes ao nosso nascimento, que nos propõe a existência em vez de nos dar a existência e que a remergulha, para trás, em imensas trevas? É o destino de todo ser germinar na obscuridade, como o grão de trigo, e morrer na luz. Só estamos plenamente presentes a nós mesmos no dia da nossa morte, quando já não podemos acrescentar nada ao nosso ser realizado, quando o universo, ao nos recolher, por fim nos entrega a nós mesmos.

Mas, se a morte esclarece o sentido da vida, é a vida, por sua vez, que nos dá o aprendizado e, por assim dizer, a experiência da morte. Pois só frui da essência da vida quem é capaz, aceitando todas as mortes particulares que o tempo não cessa de infligir em todos os momentos do seu ser separado, de penetrar até essa profundidade secreta em que todos os espíritos retiram o alimento que os imortaliza. Quando um ser renunciou a si mesmo, a morte nada pode sobre ele. Longe de procurar reter algo para além da morte, longe de ser ambicioso de possuir seja o que for, mesmo nesta vida, ele não cessa, desde já, de fazer a doação perpétua de si mesmo.

A meditação da morte, ao nos obrigar a perceber os nossos limites, obriga-nos a superá-los. Ela nos revela a universalidade do Ser e a sua transcendência em relação ao nosso ser individual. Assim, abre-nos o acesso, não a uma vida futura, que guardaria um caráter sempre provisório, mas a uma vida sobrenatural que penetra e banha a nossa vida manifesta: não se trata, para nós, nem de adiá-la, nem mesmo de prepará-la, mas, desde hoje, de entrar nela.

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