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Capítulo X. O tempo

11. Abolição do tempo.

A alegria, um grande pensamento, um interesse exclusivo, tudo o que, na vida, traz o caráter do absoluto suspende o curso do tempo. Aquele que realiza o seu destino e se sente à altura do ser e da vida está sempre preenchido pelo presente. O tempo só faz rolar coisas imperfeitas e inacabadas, incapazes de subsistir e de bastar-se, como o desejo, o esforço e a tristeza. E o nosso pensamento só abandona o presente para mostrar a sua fraqueza e a sua impotência.

Enquanto me aplico por inteiro ao objeto que me ocupa, enquanto não me separo dele, todo o resto ao redor de mim pode muito bem escoar-se no tempo, mas a minha consciência, no entanto, está subtraída a isso. E, se se pretendesse que é preciso que ela se exerça no tempo e que o espetáculo a que assiste também se desenrole no tempo, ao menos, enquanto ela se prende a ele, o intervalo deve abolir-se entre o ritmo da sua própria duração e o ritmo do acontecimento. Daí, como poderia ela ter o sentimento do tempo mesmo em que vive? Pois o tempo é uma criação da consciência e, se se julga que vivo no tempo quando eu mesmo deixo de sabê-lo, o tempo em que vivo é o seu e não o meu.

A velocidade material é um esforço em direção à supressão do tempo; se ela nos seduz a esse ponto, não é apenas porque nos permite fazer caber mais coisas no mesmo tempo, mas porque nos aproxima desse estado, que é o da contemplação perfeita, em que poderíamos abarcar, num só instante, a totalidade das coisas. Tal é o ponto de Pascal, que preenche tudo, porque é dotado de uma velocidade infinita.

Inventamos métodos sutis para ir mais rapidamente de um lugar a outro, para ver desfilar diante dos nossos olhos, num tempo cada vez mais curto, um número cada vez maior de imagens. Mas o pensamento não seguiu o mesmo ritmo: talvez até tenha se tornado mais lento. Ele confia nesse ritmo precipitado com que as coisas agora se desenrolam diante dele; e, nessa espécie de submissão, os sentidos ainda podem ser abalados, mas ele mesmo se torna indiferente e inerte.

O que caracteriza uma atividade perfeita é abolir o tempo em vez de apressar o seu curso. Viver sempre no presente é permanecer em contato com a mesma realidade eterna, é recusar-se a parar, seja para antecipar o que está diante de nós, seja para reter o que está atrás de nós. Pois é preciso interromper a ação para que o passado e o futuro surjam de repente em oposição; eles só nos arrancam do presente; transformam a nossa vida inteira numa fuga ávida e desesperada, na qual nos reconhecemos incapazes de possuir seja o que for. E esse movimento tão rápido, pelo qual deixamos todos os objetos que se nos oferecem um após outro, dá-nos uma espécie de febre que faz as vezes da posse.

O amor à novidade é um sinal de frivolidade; o amor à permanência é um sinal de profundidade. Mas é preciso ter um espírito singularmente forte para permanecer ligado a uma realidade que é sempre idêntica a si mesma e para ser capaz de reconhecê-la e amá-la por trás de todas as formas transitórias que ela não cessa de nos mostrar, sem se deixar arrastar e seduzir por elas. Aquele que vive na mudança está sempre dividido consigo mesmo, sempre cheio de medo e de pesar; aquele que vive num presente imóvel está sempre concentrado e unificado. Só ele é capaz de conhecer a verdadeira alegria. É o desejo, a insatisfação que criam o tempo: o sábio o esquece porque o presente lhe basta; o santo o supera porque o presente lhe dá a eternidade.

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