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Capítulo X. O tempo

10. O ato de presença.

A nossa atividade adquire potência e alegria assim que se liga ao presente e já não se deixa reter por nenhum pesar nem por nenhuma segunda intenção, por nenhum interesse nem por nenhuma preocupação com o êxito. E, se o passado é a atmosfera que ilumina toda a nossa vida, se o futuro lhe traz todas as promessas da esperança, é na graça do presente que um deve nos fazer sentir a sua luz e o outro o seu impulso.

Mas o apego ao presente só pode ser mantido por um ato constante da inteligência e da vontade. Pois é preciso tornar-nos presentes às coisas para que elas se nos tornem presentes: apenas a nossa atividade é muitas vezes falha, de tal modo que, se o ser nos é presente de maneira perpétua, nós só lhe somos presentes de maneira intermitente. Toda presença é presença de espírito. Ora, o que caracteriza o espírito é, antes de mais nada, estar presente a si mesmo, isto é, à luz que recebe: ele pode faltar a ela, mas ela nunca lhe falta.

O ser humano mais perfeito é aquele que é mais simplesmente presente a tudo o que faz e a tudo o que é. E a ação que exerce, ele a exerce por sua simples presença e sem procurar produzi-la: assim, é por uma simples ação de presença que a alma está unida ao corpo e que Deus está unido à alma.

A juventude permanece sempre no presente; e, permanecendo ligados ao presente, guardamos uma soberana juventude. L'Immoraliste diz com muita delicadeza: “Não gosto de olhar para trás e abandono ao longe o meu passado como o pássaro, ao levantar voo, abandona a sua sombra.” Mas a mais bela imagem desse abandono, em que devemos deixar todo o nosso passado, encontra-se ainda no maná do israelita, que se corrompia quando ele tentava guardá-lo. Nada separa mais dois seres que se encontram pela primeira vez do que o abismo misterioso do seu duplo passado. Acontece até que, quando o meu amigo me conta um passado que ignoro, eu me sinta tanto mais longe dele quanto mais ele pensa aproximar-se de mim. Só posso sentir-me unido a outro ser por um ato de presença total dele a mim e de mim a ele, no qual o nosso duplo passado é ao mesmo tempo superado e negado.

Mas, se a presença corporal é um sinal da presença espiritual, é esta que é a presença real: sempre depende de nós produzi-la. A ausência pode às vezes favorecê-la: ela só extingue os sentimentos quando não são fortes o bastante para prescindir de todo suporte sensível. Do contrário, ela os aguça e os espiritualiza; desprende-os dos laços que os retinham; revela-nos a sua força e a sua pureza.

Pois a presença espiritual obriga o nosso espírito a pôr em jogo, para criá-la, todas as suas potências de atenção e de amor, ao passo que a presença corporal as reprime porque nos tranquiliza quanto à sua realidade. Assim, essa presença dada parece dispensar-nos de nos dar a outra.

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