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Capítulo X. O tempo

9. Evasão para fora do presente.

Aborrecemo-nos do presente, desejamos languidamente uma situação em que não estamos e da qual nos aborrecemos, quando nela estamos, como da outra. Esta, por sua vez, torna-se objeto de pesar, tanto é verdade que a imaginação se alimenta do irreal, do passado ou do futuro, ao passo que o presente é o austero baluarte de um pensamento forte, a coluna do espírito.

Sempre buscamos escapar ao presente porque não temos coragem de sustentá-lo. É porque ele está diante dos nossos olhos que dele desviamos o olhar. É porque ele solicita a nossa ação que chamamos, para dele nos libertarmos, todas as potências do sonho. Ele só começa a nos interessar a partir do momento em que pressentimos que teremos prazer em lembrar-nos dele. E os acontecimentos mais familiares — aqueles de que nada soubemos tirar outrora e que só produziam em nós indiferença e tédio no momento em que se davam — adquirem um encanto misterioso quando já não são para nós senão imagens; é que então nos dão um meio de nos evadirmos do presente e já não nos sentimos ameaçados de revivê-los.

O passado às vezes serve para nos consolar da imperfeição da nossa conduta atual, representando-nos antigos sucessos que nos tranquilizam quanto ao que valemos; mas essa comparação não basta para nos iludir e nos deixa muita amargura. Acontece ainda que, quando as lembranças do meu passado me mostram um espetáculo demasiado distante da minha vida presente, eu hesite em reconhecê-las como minhas: nelas eu me busco e, no entanto, nelas também me afasto de mim. Acontece, enfim, que, quando elas têm força e doçura demais, é o próprio presente que eu considero como um sonho.

Mas também me evado do presente pela espera do futuro. Há pessoas que, durante toda a vida, esperam um futuro em que poderão enfim começar a viver; ora, esse futuro nunca acontecerá. Assim, o pensamento delas vai sempre ao encontro do que não é, mas ele é impotente diante do que é. Elas são semelhantes ao prisioneiro que só vive da esperança de uma liberdade que talvez nunca lhe seja dada ou que talvez ele não saiba empregar. Mas, para elas, a morte sempre sobrevém durante o período de espera; e já não têm atrás de si senão uma existência vazia. É que, esperando viver, elas só esperavam morrer. Entre a miséria que tal momento do tempo nos traz e a felicidade que tal outro momento nos promete, há uma diferença de grau que muitas vezes é ilusória. Mas, entre o presente do ser e o nada da espera, há o infinito.

Algumas pessoas, ao contrário, têm uma pressa febril de viver, de encerrar, de uma só vez, no presente, todo o futuro que lhes está reservado: o seu coração é tão ardente quanto o dos primeiros era lânguido. Mas o presente deve bastar-nos e preencher-nos, pois todo o Ser nele se encontra. O futuro não nos trará nada de novo que o presente já não contenha, se somos capazes de aí descobri-lo: é, portanto, inútil procurar adivinhá-lo, nele se comprazer pelo sonho, fazer esforço para correr até ele. Aquele que está unido a Deus não conhece nem impaciência nem pressa: quaisquer que sejam as tristezas que o instante lhe traga, ele sabe permanecer no lugar que lhe é assinalado pela ordem da natureza. Mede a extensão da sua tarefa atual, ama a sua humildade, aplica a ela a sua vontade e, dentro dos seus limites, faz caber o ilimitado. É neles que ele experimenta as fortes alegrias de ser, de ver, de agir e de amar.

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