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Capítulo X. O tempo

8. O ritmo dos acontecimentos.

Para que o tempo já não retenha o nosso olhar e já não possa nos distrair, inquietar e entristecer, é preciso que saibamos reconhecer o ritmo dos acontecimentos e responder a ele. Então parece que nos deixamos levar pelo tempo como a barca que não é retardada pelo seu peso nem constrangida pelo esforço dos remos; é sinal de que a governamos com justeza. Mas quase todos os seres humanos gostariam de regular a corrente. Para uns, o tempo passa rápido demais e, para outros, lento demais. Mas uns e outros o sentem passar, o que é muito demais: a perfeita inocência, como a perfeita ciência, é reconhecer o seu jogo e ajustar-lhe o nosso. Mas procuramos sempre reter o curso do tempo ou precipitá-lo. E pensamos que esse poder nos pertence, já que toda a nossa liberdade consiste na arte de retardar os nossos movimentos ou acelerá-los.

Mas não dispomos do tempo; ele dispõe de nós. A sua ordem se impõe a nós com um rigor inflexível. Há um ritmo do tempo que é independente de nós, já que nos queixamos sempre de que ele adia o desejo ou o antecipa: assim que a nossa vida consente em segui-lo, evitamos todos os males engendrados pelo tédio e pela impaciência. Aquele que soube pôr em harmonia o ritmo da sua própria vida com o ritmo do universo já penetrou na eternidade.

Mas a dificuldade, para todos os seres humanos, é pôr em acordo o movimento da imaginação com o dos acontecimentos. Todo passo do espírito que se detém cedo demais ou não se detém cedo o bastante é um erro ou uma falta. Não apenas não se deve deixar passar a ocasião de agir, como também não se deve abandoná-la enquanto ela ainda guarda alguma promessa; do contrário, não teríamos continuidade nos desígnios. É preciso deixá-la assim que ela se murcha, assim que uma nova ocasião já nos chama. Às vezes parece que jogamos o nosso destino inteiro numa ocasião, mas não ficamos prisioneiros de nenhuma delas; outras se apresentam todos os dias e nos propõem um destino novo.

O que caracteriza o sábio é ligar-se ao acontecimento com todas as forças da atenção e da vontade — pois sabe bem que, no acontecimento, todo o ser lhe é dado —, não lhe preferir os fantasmas que o desejo e o pesar não cessam de lhe apresentar, discernir o ritmo do tempo e obedecer-lhe com um consentimento alegre e tranquilo, acolher com gratidão tudo o que o tempo lhe traz e responder a todos os apelos da ocasião e a todos os toques da inspiração com uma docilidade perfeita.

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