Capítulo X. O tempo
7. O ritmo do pensamento.
A atividade perfeita possui um ritmo natural, fácil e forte que importa reconhecer para lhe obedecer. Mas cada um de nós cria o ritmo da sua própria duração: Descartes tem toda razão em querer evitar a precipitação, que é um excesso de movimento, e o preconceito, que é um excesso de inércia. Não é preciso ter pressa, mas também não é preciso ser lento. E é preciso opor à lentidão, tanto quanto à pressa, o movimento regular e ordenado que leva todas as coisas à maturidade. Quase todos os seres humanos falham no que fazem porque não encontraram essa medida da atividade que é exatamente proporcionada ao seu gênio e que lhe permite dar todo o seu fruto. Um espírito rápido demais corre o risco de imaginar em vez de compreender; cede ao impulso em vez de esperar a graça. Mas um espírito lento demais não capta o relâmpago da luz no momento em que ele se produz e ainda o procura quando ele já passou. Deixa escapar a ocasião de agir e não a reencontra mais.
Há, é verdade, espíritos que têm movimento demais. Há outros que não têm bastante. Os primeiros passam de uma ideia a outra com muita rapidez: mas elas não deixam neles nenhum traço e eles nunca tomam posse delas. Os outros têm mais estabilidade: mas lhes falta a flexibilidade que abraça, uma após outra, as formas mutáveis do real. Nem uns nem outros estão de acordo com a ordem natural. Uns são arrastados pelo tempo, e outros resistem ao seu escoamento. Estes se prendem mais ao ser, aqueles aos seus modos. Mas o ser não pode ser separado dos modos, e o espírito não deve nem permanecer imóvel, nem tornar-se um lugar de passagem para estados evanescentes.
Cabe ao espírito regular a sequência de suas operações. Se elas são frequentes demais ou raras demais, é porque o pulso da nossa existência bate ele mesmo com força demais ou brandura demais. A nossa atenção é impedida por um excesso de abalo tanto quanto por um excesso de inércia. Ela se torna incapaz de encontrar o seu justo equilíbrio e de dar ao nosso pensamento a sua marcha regular.
É preciso saber desprender-nos bastante de toda complacência ou de toda impaciência para remediar a marcha desigual da nossa própria duração e para desempenhar exatamente a nossa parte na duração mesma do Todo. Só sentimos em nós uma perfeita plenitude do ser e da vida quando nenhum intervalo se abre entre a ordem dos nossos pensamentos e a dos acontecimentos. Só guardamos contato com o real se sabemos reconhecer o instante propício em que as coisas vêm oferecer-se por si mesmas ao nosso espírito e lhe pedir que as acolha. Do contrário, ele permanece vazio e, conforme o seu movimento seja tardio demais ou rápido demais, ele não apreende senão sombras cujo corpo escapou, ou quimeras que nunca tiveram corpo.