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Capítulo X. O tempo

6. O futuro.

O futuro nos comove mais do que o passado e, para muitas pessoas, basta que o acontecimento se realize para que ele deixe de tocá-las. Assim, elas se esgotam na perseguição de um objeto cuja presença lhes será indiferente. Nada amam tanto quanto a angústia do que ainda não é: ela só cessa para lhes dar a decepção do que é. Elas só sentem a própria força nas trevas do desejo; ela se esvai quando precisa sustentar a luz da posse.

Sempre nos parece que o futuro nos trará uma revelação que dará, ao mesmo tempo, ao nosso destino e ao do mundo o seu sentido e o seu desfecho. Há no fundo de todos os seres humanos um messianismo que é, sobretudo, uma fuga para fora do presente: muitos deles são semelhantes àqueles judeus que consomem a vida fugindo primeiro, pelo pensamento, para o passado dos profetas, a fim de fugir em seguida, pela esperança, para um futuro que realize as profecias.

Existe, sem dúvida, um futuro do universo que se impõe a nós apesar de nós e cuja vinda esperamos com um sentimento de esperança, de medo e de resignação; mas existe um futuro cuja disposição nos é deixada, no qual a nossa liberdade se empenha e que nos permite inscrever a nossa marca no real. Apenas não se deve submetê-lo de antemão a um desígnio demasiado rigoroso; ele deve tomar lugar nesse futuro do universo que escapa às nossas mãos: é preciso pô-lo de acordo com ele.

Há pessoas que preparam de muito longe todos os acontecimentos da sua vida. Às vezes o destino lhes é favorável e confirma a segurança dos seus cálculos. Mas a sua sabedoria nunca é suficientemente advertida. Ao fixarem cedo demais o plano que pretendem impor à própria vida, recusam de antemão mil possibilidades que lhes serão oferecidas: a opção que quiseram fazer lhes dará menos satisfação do que a humilde aceitação do que lhes era proposto. Todos os dias, ocasiões inesperadas de agir se encontram no nosso caminho; todos os dias também, novos bens que não suspeitávamos são postos ao nosso alcance. Para ter uma vida mais regrada, será preciso passar ao lado deles sem vê-los, perseguir cegamente a decisão incerta que se adotou uma vez e que talvez já não se examinou desde então? Posso, no entanto, ter-me enganado: um pesar pode vir-me no momento em que a minha vida termina, quer eu falhe, quer eu obtenha o objeto a que mirei por tanto tempo.

Ao contrário, se não cessei de viver no presente, atento a todas as solicitações que se dirigem a mim e pronto a lhes responder, cada uma das minhas ações me basta e traz em si mesma a sua própria razão. Nenhuma delas é um meio em vista de um fim distante que sempre corre o risco de escapar-me e de decepcionar-me. Não adio viver. Tudo o que me acontece me dá da vida a posse mais atual e mais plena. Não é quem pensa mais no futuro que melhor o preserva. É quem dele se desinteressa para consagrar ao presente todas as suas forças: os frutos da sua colheita sempre superam, em sabor e em beleza, a arte e a previsão do jardineiro mais hábil.

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