Skip to content

Voltar ao livro

Capítulo X. O tempo

5. O passado.

O que dá à vida o seu caráter sério é a indestrutibilidade do passado. Se ele não deixasse em nós nenhum traço, viveríamos numa espécie de instantaneidade, sem lembrança e sem desígnio. Se pudéssemos aboli-lo por um ato de vontade, viveríamos numa espécie de instabilidade, tentando a todo momento novos ensaios que logo mergulharíamos no nada. Mas o passado se conserva inteiro no presente: ele é feito das diferentes camadas geológicas que, juntas, sustentam o próprio solo sobre o qual caminhamos.

O passado tem para nós um caráter profundo, venerável e sagrado. Ele atravessou outrora o presente e agora o sustenta sem ser afetado por ele; enraíza a nossa vida na eternidade. A antiguidade, a tradição ou simplesmente a velhice engendraram o sentimento do respeito, que é sempre um respeito pelo ser consumado: já não se dirige ao que está vivo; se ele pereceu, se está prestes a perecer, adquire a majestade das coisas imperecíveis. É porque o passado está sem uso e subtraído ao uso material que ele se torna um valor em si, fora de toda comparação com as nossas necessidades. Todo acontecimento se enobrece na lembrança, que só deixa subsistir dele a ideia, isto é, o seu significado puro.

Pode acontecer, entretanto, que o passado produza em nós dois efeitos opostos. O passado pode acumular-se no espírito e preencher-lhe pouco a pouco a capacidade, de tal modo que o espírito já não receba do universo senão um toque cada vez menos vivo e uma contribuição cada vez menos abundante. Mas ele pode também dilatá-lo, torná-lo mais flexível e cavá-lo de tal sorte que o real não cesse de penetrar nele por caminhos cada vez mais numerosos e cada vez mais profundos.

O passado nunca pode bastar-nos; e é verdade até que cada um tende a apagar da sua vida o próprio passado, a renascer todos os dias com um coração novo. Por isso, o mundo da lembrança às vezes me parece um espetáculo curioso que se oferece de fora à minha atenção, que pode surpreender-me, alegrar-me ou repelir-me, mas sem me pertencer muito mais do que o mundo material sobre o qual o meu olhar se espalha. O que me aconteceu, mas que esqueci, e de que outros, no entanto, foram testemunhas e guardaram memória, é ainda meu? Não há um ponto em que eu acabe por confundir os acontecimentos que me ocorreram com os que poderiam ter-me ocorrido ou que ocorreram a outros? E o amor-próprio não intervém, sem que a consciência se dê conta, ora para negar uma lembrança que me pesa, ora para reivindicar alguma ação que não fiz e na qual a minha imaginação se comprazia havia tempo demais?

A consciência de si — 5. O passado. has loaded