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Capítulo X. O tempo

4. Gênese do tempo.

Quando se está presente a si mesmo, diz Porfírio, possui-se o ser que está presente em toda parte.” É somente dessa ausência de nós mesmos a nós mesmos que nasce a nossa vida temporal e, por conseguinte, a nossa fraqueza e todos os nossos males. Só há tempo para que haja sempre um intervalo entre o ser pensado ou desejado e o ser dado ou possuído. O tempo não é necessário ao desdobramento da atividade divina: ela anima tudo o que é num presente eterno. O tempo é a medida da nossa fraqueza: num instante, a atividade infinita realiza tudo. É o ócio da espera que nos introduz no tempo; é a inquietude do acontecimento que precipita o seu curso; mas há um novo ócio que nos liberta dele, quando o acontecimento, que sempre vem a seu tempo, nos faz sentir a nossa harmonia com o Todo e realiza em nós a sua presença.

É porque vivemos no tempo que em nenhum momento somos nós mesmos por inteiro e que a nossa natureza não se distingue da nossa vida. Ela se escalona no sucessivo. Ela nele se derrama. Ou melhor: ela nele se constitui pouco a pouco. O que assim formamos gradualmente é o nosso próprio ser, que só estará acabado quando, na morte, se desatar dos laços do tempo. Assim, o tempo mede o intervalo que nos separa do que devemos ser: por isso ele se dilata na ociosidade e parece tanto mais curto quanto mais cheia está a nossa vida.

Só podemos pensar o tempo no presente. Mas esse pensamento nos faz sentir um duplo tremor: pois a ação que acabamos de fazer está agora subtraída à nossa vontade, é ao mesmo tempo abolida e consumada; e o futuro em que entramos nos dá a comoção do que vai ser e desperta a nossa responsabilidade ainda mal assegurada. O passado é único e fixo: é um espetáculo que nos fascina; é um peso que nos esmaga. O futuro é duplo e incerto; quer dependa do destino, ele sempre se nos oferece como um acontecimento que pode ser ou não ser, como uma alternativa entre dois contrários. E é por isso que a sensibilidade só se prende ao passado por um único sentimento, que é um pesar ao mesmo tempo complacente e melancólico, ao passo que não podemos encarar o futuro sem oscilar, a cada minuto, entre a esperança e o medo.

O presente nos parece sem realidade, já que é a passagem de um passado que já não é para um futuro que ainda não é. No entanto, nunca saímos do presente. E é por isso que o nosso ser é miserável e precário. É no presente que sentimos essa fragilidade da vida, que não possui nada, pois abandona com o passado todos os bens que acreditava ter adquirido e que a perseguem como fantasmas, mas que já se inclina para o futuro com todas as forças de um desejo incessantemente renascente e incessantemente frustrado.

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