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Capítulo X. O tempo

3. Tempo e amor-próprio.

Quando a nossa atividade preenche o tempo, ela já não nos deixa o ócio de perceber o seu escoamento; todo o nosso ser, confundindo-se com o ato que realiza, vive na eternidade, indivisivelmente associado à potência criadora. Em vão tento preencher o tempo com o espetáculo do que não faço: mal consigo enganar o meu tédio. Assim que a minha atividade começa a fraquejar, aparecem interstícios entre as minhas aspirações e os acontecimentos, e é nesses interstícios que se insinua o pensamento do que me falta, isto é, do que perdi ou do que espero. Então começo a viver no tempo.

O tempo é uma criação do amor-próprio, que me separa do Todo e me prende a bens particulares. Quem permanece indiferente a eles e pensa que o verdadeiro bem reside apenas na atitude interior que pode assumir diante de todos os bens que lhe são dados está liberto do tempo. Pois só os bens particulares estão envolvidos no tempo; e quem os ignora ignora o pesar e o desejo.

Por falta de aplicar o meu espírito ao que me é dado, de penetrá-lo, de tomar posse dele, de nele me sentir em acordo com o ritmo do universo, deixo-me distrair pela ideia do que poderia acontecer-me; para me torturar melhor, abandono o meu próprio ser, fujo para os dois mundos ilusórios do passado e do futuro, olho ora para trás, ora para a frente e não cesso de gemer sobre a marcha do tempo, que é sempre rápida demais ou lenta demais em relação aos meus desejos.

É a ociosidade que deixa entrar em mim, com o tempo, todos os devaneios da imaginação. Então vivo na expectativa, voltado para o que não é e lembrando o que foi, ansioso pelo que será e que pode ser, ora um recomeço esperado ou temido, ora um desconhecido que me alarma ainda mais. Mas o que caracteriza a sabedoria é permanecer ligada ao presente e nada esperar.

O gosto da perfeição é muitas vezes a causa de todas as nossas imperfeições: não se deve pedir ao momento presente mais do que ele pode fornecer. Basta absorver nele a nossa atividade sem lhe misturar, seja os escrúpulos que um passado abolido arrasta consigo, seja a impaciência de um futuro cuja hora não chegou. Não fazemos com exatidão o que devemos fazer no presente se queremos fazer caber nele o que encontra lugar em outro tempo; e a nossa ação perde o seu valor eterno quando se divide em vez de se aprofundar. O ato atento ao seu objeto não nos deixa consciência alguma da fuga do tempo; ela só se produz quando sentimos o vazio da existência e percebemos, não a insuficiência do que nos é dado, mas a nossa própria insuficiência: pensamos em abandonar o que nos é dado sem sermos capazes de esgotá-lo, nem sequer de senti-lo.

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