Capítulo X. O tempo
2. O tempo liberta e escraviza.
O tempo é o meio que nos foi dado para exercer a nossa liberdade e participar da obra da criação: ele mede a potência da nossa iniciativa individual. E o tempo tem um sentido: permitir-nos dar à nossa própria vida o sentido mesmo que escolhermos. É ele que nos permite dispor da nossa atenção, escolher, no mundo, o objeto da nossa contemplação e tornar-nos autores do nosso próprio saber; é ele que nos permite o desenvolvimento de todas as nossas potências. Os corpos criam a sua independência no interior do universo pelos movimentos que se dão a si mesmos, assim como os espíritos criam a sua independência no interior da verdade pela ordem que imprimem aos seus pensamentos.
O que caracteriza o eu é dar a si mesmo o ser: ele só pode consegui-lo porque vive no tempo. E, se a vida deve aparecer no tempo, é precisamente porque ela é uma posse que, a cada instante, deve ser adquirida e pode ser perdida. Em relação ao ser infinito, é uma imperfeição viver no tempo, já que o tempo não cessa de me retirar o que me deu. Mas é a perfeição da minha natureza finita; sem ele, ela não poderia desenvolver-se e, portanto, não poderia ser.
O tempo permite que a minha liberdade se exerça, pois abre diante dela o futuro. Mas é também uma cadeia, porque o passado pesa sobre mim com todo o seu peso, porque o próprio futuro me arrasta, quer eu consinta, quer eu me rebele; e é viver uma vida bem miserável ter apenas o sentimento de que tudo passa e esperar, a cada instante, o fim da hora que começou. Quem é sempre surpreendido pelo acontecimento é sempre escravo; quem dispõe do tempo é capaz de tornar-se senhor dos seres e das coisas.
É no tempo que se produzem todos os progressos, todas as quedas e todos os renascimentos. O tempo amadurece o fruto e o apodrece, melhora o vinho e o azeda. Assim, todos os problemas que nos são postos se reduzem ao uso que devemos fazer do tempo. Podemos fazer dele o melhor uso ou o pior.
Mas, no seu melhor uso, ele desaparece; já não há nele essa ambiguidade, essa diversidade de possíveis entre os quais ele nos pede que escolhamos: torna-se como um vaso transparente que só deixa perceber a realidade que o preenche. Não nos tornemos vítimas do tempo: pois, então, a cada minuto ele nos degrada, nos rói e nos mata. É preciso travar contra ele um combate perpétuo: salvar o próprio ser é sair dele vencedor.