Capítulo X. O tempo
1. O tempo, artífice da vida.
O tempo é o criador, o conservador, o destruidor de tudo o que é. Assim, pelo nascimento, ele chama ao ser todos os indivíduos; pela duração, mantém-nos no ser; e, pela morte, cumpre o seu ser ao reconduzi-los ao seio imenso do passado. Ele é o ato vivo da Trindade. E as suas diferentes operações reduzem-se a uma só: pois ele só cria destruindo, e toda destruição é, nele, um cumprimento. Ele é o lugar de todas as gêneses e de todos os aniquilamentos. A cada instante, ele nos retira o ser e no-lo dá: suspende-nos entre o ser e o nada. E esse era, sem dúvida, o sentido profundo do pensamento de Descartes quando falava da criação continuada. Ronsard também dizia, com uma trivial simplicidade: “O tempo nos faz, o próprio tempo nos devora.” Compreende-se, portanto, que os seres humanos tenham podido adorar o Tempo como um deus; e, quando adoravam o Sol, não era apenas porque ele é o princípio da vida, mas porque introduz a vida no tempo e lhe impõe o ritmo do dia e da noite como o ritmo das estações.
Mas o tempo não é Deus: é apenas o meio que Deus dá a todos os seres para se criarem a si mesmos e realizarem o seu destino. Deus é eterno; e a eternidade é a fonte de que a atividade de todos os seres não cessa de extrair; ela aí extrai com mais ou menos confiança e continuidade, e é assim que faz entrar a vida deles no tempo. Nenhum ser abandona jamais o presente, e é no presente que está em contato com a eternidade; mas esse contato é evanescente: é preciso que não cesse de se renovar e de se perder para que a nossa independência esteja assegurada. Por isso mesmo, o presente não tem conteúdo algum. Nunca saímos dele e não podemos nele permanecer: é o ponto de cruzamento de um passado que nos foge e que precisamos ressuscitar e de um futuro que nos tenta e que precisamos realizar.
Pois o presente não deve jamais cessar de fazer-se, a fim de que o indivíduo possa, a cada instante, reencontrar por um ato novo uma vida que subsiste eternamente. Mas o passado nos limita e nos constrange, já que está consumado: é a única coisa que é e já não se torna. Por isso, é a única parte de nós mesmos e do mundo que somos capazes de conhecer: só ele pode ser contemplado. O futuro, ao menos em aparência, limita-nos ainda mais: pois nos é oculto, e nem sequer exprime o que nos constrange, mas o que nos falta. No entanto, enquanto o passado nos dá da criação uma posse espiritual, o futuro nos permite participar do ato criador; faz de nós instrumentos da potência divina nos limites que nos são assinalados; confia-nos o seu uso e a responsabilidade por ele.
O tempo nos permite ser os operários da nossa própria vida e, portanto, melhorá-la ou corrompê-la a cada instante. Seria preciso que ela nunca caísse abaixo do ponto mais alto que tivemos a felicidade de alcançar e que o último momento da nossa vida fosse também o mais pleno e o mais belo. Mas todo ser humano é como o artista cujo toque, a cada vez, corre o risco de estragar a obra começada e que não sabe reconhecer esse instante tão frágil do êxito perfeito, que ele altera assim que procura ultrapassá-lo.