Capítulo IX. O amor
12. Amor e unidade.
Há um só amor, embora ele dê origem a uma infinidade de sentimentos, como há uma só inteligência, embora ela dê origem a uma infinidade de pensamentos. Não se pode renunciar ao amor sem renunciar a alcançar o íntimo mesmo do mundo, isto é, o princípio que dá à nossa vida o seu impulso e o seu sentido, que rompe a nossa solidão e nos põe de acordo com os outros seres, que resolve a nossa dualidade e harmoniza em nós o espiritual com o sensível, que reconcilia todos os nossos desejos e nos faz viver na unidade.
Aquele que melhor conhece o amor é o que abraça todos os outros seres no mesmo amor. Ele o dá por inteiro a cada um deles, pois o amor é um dom de si, e um tal dom não admite partilha. Quem o recebe o encontra tão perfeito que tem a certeza de ser amado por um amor único no mundo. Mas não se pode amar como é preciso um único ser a não ser que se ame como é preciso todos os outros. O amor que tenho por todos sustenta e multiplica o amor que tenho por cada um, em vez de dispersá-lo. Assim, todo amor de exclusão é um roubo que se comete não apenas contra os outros seres, mas contra o próprio ser que se ama.
Todo amor aparece justamente como um laço de exceção entre dois seres de exceção; todo amor deve ser excepcional para encarnar, a cada vez, a essência única e total do amor. Em todo conhecimento e em toda ação, é preciso ir do princípio às consequências, do centro à periferia e do foco aos raios. No amor também, é o amor universal — isto é, o próprio ser do Amor — que se reencontra sob uma forma perfeita e indivisível no amor de dois seres particulares. Mas ele se oferece a cada um deles como um dom tão pessoal e tão privilegiado que sempre se assemelha a uma graça que não teve exemplo e não terá recomeço.
É preciso ter feito a experiência do amor das criaturas para perceber que o fim da nossa vida não é dissolver a nossa existência separada na unidade do imenso universo. É uma ilusão pensar que poderíamos assim nos ampliar chegando um dia a possuir o Todo e a nos identificar com ele; não faríamos senão nos aniquilar. O universo está à medida de cada consciência particular, à qual ele é capaz de fornecer, sem destruí-la, uma satisfação absoluta; mas é o amor que lha dá.
Um mundo em que todas as partes viessem fundir-se na unidade do Todo já não seria a unidade nem o Todo de coisa alguma. Já não seria um mundo. Mas o amor nos revela com singular acuidade a realidade desse ato de união que é a própria vida da unidade. Só há beleza e inteligibilidade no mundo porque todos os seres que o compõem guardam uma vida própria e não cessam de circular nele e de se unir entre si por uma infinidade de relações espirituais que dependem da invenção de cada um e do consentimento de todos.
É preciso que o ser que ama realize pelo amor todas as suas potências interiores, que penetre o seu próprio segredo e, ao mesmo tempo, o faça desabrochar. É preciso que o objeto amado seja para ele um ser independente cujo valor ele exalte sem cessar, sem jamais esgotá-lo, e ao qual atribua uma iniciativa pessoal capaz de sempre superar a sua previsão ou a sua espera. Ama-se um ser que deve ser outro que não nós mesmos e que se quer que seja precisamente tal como é, para não subordiná-lo a nós e até para parecer subordinar-nos a ele, se é verdade que dele recebemos tudo o que doravante somos capazes de possuir. Mas a simples presença mútua de dois seres que se amam deve dar a cada um deles um tal ímpeto, um tal movimento, que, no momento em que estão mais unidos, cada um deles se sinta confirmado na sua própria lei.