Capítulo IX. O amor
11. Valor infinito do amor.
As pessoas que vivem pelo amor, como as que vivem pelo pensamento, carregam em si uma preocupação permanente: não se pode distraí-las dela sem lhes retirar o movimento e a vida. Quando ela reaparece, o mundo retoma a sua figura e o seu sentido; elas reencontram nele o seu lugar natural, percebem de novo a oposição da sombra e da luz, o gosto da dor e da alegria. Reprova-se-lhes que se encerrem na solidão no próprio momento em que a rompem, em que tomam posse de tudo o que as cerca, penetrando no que estava fechado, revelando o que estava escondido, espalhando o sopro que as anima sobre um universo inerte e dando-lhe a palpitação interior que, sem o amor, ele não teria.
Dir-se-á que o valor do amor depende de quem ama: como a liberdade, pode-se fazer dele o melhor uso ou o pior. Mas o valor do amor ultrapassa incomparavelmente o mérito dos amantes: ele os eleva acima de si mesmos. O coração de nenhum deles é bastante grande para que o amor caiba nele. E não se deve dizer que cada ser ama com um amor à sua medida, nem que pouco importa que esse amor seja pequeno ou grande, contanto que preencha toda a sua capacidade. Já que o amor une um ser a outro, cada um se obriga precisamente a transpor os próprios limites, isto é, a deixar-se e, no entanto, a encontrar-se, a sacrificar-se e, no entanto, a realizar-se. Cada um sente que o amor nada pode nele senão com a condição de que ele mesmo viva no amor. Assim, o amor nunca lhe faltará, mas ele próprio sempre faltará ao amor. O amor ultrapassa o ser amado tanto quanto o ser que ama; é um infinito presente, mas também um movimento sem termo, uma promessa que nunca se esgota. Por isso, compararam-no a uma inspiração e a uma fatalidade: em relação ao amor, a perfeição da nossa iniciativa reside na perfeição da nossa docilidade.
É preciso, portanto, abençoar o amor mais mesquinho, em vez de desprezá-lo e de se queixar dele. E mesmo o amor mais baixo ainda eleva a alma que o sente, embora o amor-próprio julgue de outro modo. Não é sequer verdade que as almas maiores só possam aceitar um amor do seu tamanho; pois, na sinceridade do amor mais simples, podem encontrar toda a riqueza do coração humano. Não há nada mais precioso do que o movimento espontâneo, por mais tímido que se suponha, que impele um ser para outro ser. O amor é indivisível; ele se sente sempre chamado à fruição do absoluto. Não se nos dá como uma coisa já feita e medida de antemão: cabe a nós fazê-lo e, dando-lhe a nossa vida inteira, descobrir que ele é sem medida. Assim, no amor mais humilde, há possibilidades infinitas que cabe a nós deixar perder ou fazer desabrochar.
Assim, desde que o amor existe, é preciso que ele se eleve até o infinito; mas, se se desprende de sua fonte universal e espiritual, se, em vez de atravessar o ser finito para superá-lo, o transforma ele mesmo em infinito, é inevitável que produza o desastre e a morte, como o cristianismo sustenta e como Racine testemunha.