Capítulo IX. O amor
10. O amor temporal e eterno.
No amor, a ausência muitas vezes tem mais poder do que a presença. É que o amor precisa de uma posse espiritual e eterna. E pode acontecer que a presença sensível nos dê segurança demais ou insegurança demais, faça obstáculo à presença interior em vez de servi-la e alimente a emoção mais do que o sentimento. Mais do que o silêncio que ainda é acompanhado pela presença dos corpos, a ausência dá ao amor uma força e uma pureza imateriais. Às vezes, chega até a despojá-lo da imaginação, das lembranças e das promessas, não deixando subsistir senão a união inesgotável do pensamento com a pura ideia do objeto amado.
Assim, de todos os que melhor descreveram o amor, pode-se perguntar se a sua acuidade e a sua penetração não provinham quase sempre de um amor perdido ou de um amor impossível. É preciso desconfiar, entretanto, das derrotas, das evasões que nos fazem preferir ao amor o sonho do amor; elas se assemelham às consolações de um artista impotente que, renunciando, por ora, a imprimir na matéria a sua marca, consome-se na lembrança de uma obra destruída ou no sonho de uma obra imaginária.
O amor mais fraco, que só vive de sinais sensíveis, e o amor mais forte, que os despreza, alimentam-se ambos apenas do presente; o pensamento do passado ou o do futuro os extenua; são o refúgio de certos espíritos delicados para os quais o amor acaba por tornar-se um jogo todo interior em que perseguem indefinidamente o pedido e a resposta.
O amor é a própria vida do espírito: ele nos transporta para a eternidade; mas, como a eternidade, é preciso que, a cada instante, corramos o risco de perdê-lo. E é a reunião desses dois caracteres que lhe dá essa ansiedade sempre renascente que nos queima e nos dilacera. Se nos apoiamos nele e a nossa atividade cessa, por um só instante, de sustentá-lo, ele desce imediatamente para o tempo. Mas ficamos perturbados assim que deixamos de estar plenos; e o pensamento do que nos falta logo nos lança num abismo de miséria. Então o amor parece tenso em direção a um fim sempre pronto a escapar e que buscamos sempre alcançar ou reter. Assim que se envolve no tempo, ele só vive de crises; mas o amor só é verdadeiro se aspira a libertar-se disso, e não a comprazer-se nisso. E, para conhecê-lo, é preciso observá-lo em certos momentos de posse em que ele nada deseja porque os seus desejos foram ultrapassados, em que desfruta de si mesmo e da presença espiritual do objeto amado, em que não procura prolongar-se porque não teme perder-se, em que se absorve inteiro na sua essência realizada.