Capítulo IX. O amor
9. O amor criador.
O único filho que é nosso e que jamais se desprende de nós é esse eu interior que traz a marca das nossas menores ações, cuja natureza formamos pouco a pouco e cujo destino seguimos a cada passo com uma atenção ansiosa. Mas os filhos da nossa carne tornam-se imediatamente independentes de nós e, quando ainda arde o amor que os fez nascer, fogem diante de nós como a água que escorre.
Mas o amor não é apenas criador de corpos; se ele cria o corpo de outro ser, cria antes o ser espiritual dos que se amam: ele é esse ser mesmo. Com demasiada frequência se considera o amor como um princípio de união entre almas inicialmente separadas; mas ele gera primeiro cada uma dessas almas para si mesma; gera-as uma à outra. É semelhante à inteligência, que não é posterior às ideias que reúne, mas que, no mesmo ato, as une e as faz ser.
Assim, cada ser que ama pode assistir ao espetáculo do seu próprio nascimento. O efeito do amor é rasgar a superfície tranquila da sua consciência, revelar-lhe as potências mais escondidas e pô-las em movimento. A comunhão que ele realiza com outro ser é ao mesmo tempo o instrumento e a garantia dessa comunhão invisível que se produz nele mesmo entre as suas duas naturezas: entre o seu eu de desejo, sempre faminto e miserável, e o seu eu espiritual, que é o único que lhe dá alimento e vida. Mas o eu do desejo só consegue descobrir essa presença tão admirável e tão próxima se recebe de fora algum abalo suficientemente forte para obrigá-lo a sair de si.
Assim, é verdadeiro ao mesmo tempo que o amor nos arranca de nós mesmos e que nos gera para nós mesmos. A alma não habita no corpo que anima, mas no lugar do seu amor; apenas esse lugar a alma só o encontra no mais profundo de si mesma. É por isso que o ser que amamos volta primeiro para o centro da nossa própria vida secreta todas as nossas potências de atenção e de desejo. Mas é preciso também que, em nós mesmos, já não nos busquemos, se o amor é abandono de si e metamorfose, se ele pensa sempre receber e nunca dar, se enfim o ser que amamos é sempre para nós o guia predestinado que nos introduz num mundo sobrenatural.
Deus abarca todos os seres. É ele que lhes dá o movimento e a vida, e é por isso que se diz que ele os ama. Para ele, não há diferença entre amar e criar. Mas o amor das criaturas vem dele e deve remontar até ele. Supõe entre elas uma separação que ele abole. Ora, essa separação e o amor que ela torna possível só se dão entre seres de carne, e é por isso que o amor do Deus criador só pode consumar-se no amor de um Deus encarnado.