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Capítulo IX. O amor

8. O amor pessoal.

Embora o amor seja a união real de dois seres e não haja união mais perfeita do que a do pensamento e da ideia, não basta, entretanto, nem ao amado existir apenas como ideia na consciência daquele que ama, nem ao que ama amar apenas uma ideia, que ainda é uma parte de si mesmo. Nenhum deles encontraria alívio ao pensar que há nessa relação uma reciprocidade que os iguala.

Mas não é verdade, antes de tudo, que a consciência seja uma só coisa com as suas ideias, isto é, com esse puro espetáculo que lhe é oferecido e que muitas vezes não basta para comovê-la. Sem dúvida, as ideias só existem em nós e são até, às vezes, puras ficções do nosso espírito; no entanto, elas não são nós, pois podemos aceitá-las ou rejeitá-las, e nunca somos nada senão a nossa preferência mais escondida e, por assim dizer, o nosso puro consentimento.

Além disso, o amor é precisamente a descoberta de um ser que é ao mesmo tempo infinitamente mais independente de nós e, contudo, infinitamente mais interior a nós do que a mais perfeita das nossas ideias. Esse ser depende tão pouco de nós que podemos, ao contrário, colocar-nos sob a sua dependência: é, portanto, que o amamos como um ser que vive fora de nós, como uma pessoa real. O que caracterizava o conhecimento era transformar os seres em ideias; mas o amor possui o segredo dessa operação soberana, semelhante àquela pela qual o mundo foi criado e que consiste em transformar as ideias em seres.

Mas esse ser amado, tão independente de nós, é contudo mais interior a nós do que nós mesmos; pois é ele que nos dá o sopro e a vida, como nós mesmos damos sopro e vida a todas as nossas ideias. Vê-se assim se formar esse admirável circuito, que é a própria lei do amor e que, de uma ideia, faz um ser que, por sua vez, nos dá o ser a nós mesmos.

O que há de comum a todos os seres humanos no amor é a alegria que esse sentimento lhes faz experimentar, associada, como diz Spinoza, à ideia da causa que a produz. Mas a simples presença do ser amado não pode lhes bastar; ela muitas vezes acrescenta à sua miséria; o que desejam é o consentimento interior da sua vontade que, se está de acordo com a ordem espiritual, os une a Deus e dá à sua alegria a marca do infinito. Então o amor remonta ao seu princípio e apresenta um caráter de perfeição.

Pois o amor perfeito é um ato e um dom. Não é a contemplação de uma ideia. Ele rompe a nossa solidão e, por conseguinte, os nossos limites. Mas, se só há dom em favor de uma pessoa, compreende-se que só o amor nos revela a pessoa do outro. Se todo dom é um ato voluntário, compreende-se que ele comprometa o nosso. Se todo dom é um dom de si, compreende-se que seja o mais belo emprego de si ao mesmo tempo que o sacrifício de si. Se o dom que recebemos supera desmedidamente o que oferecemos, compreende-se que seja porque, graças à mediação de outro ser, ele nos faz comungar com uma presença sobrenatural que age sobre nós por um simples toque.

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