Capítulo IX. O amor
7. O amor contemplativo.
Não há posse mais perfeita e mais pura do que a que o olhar dá. Possuímos tudo o que vemos.
As pessoas, é verdade, preferem confiar-se a potências mais obscuras; é que há na visão, como na inteligência, transparência e clareza demais para elas: o espírito se vê aí reduzido a uma atividade demasiado despojada. Elas só amam as suas paixões. Sentem-se tanto mais fortes quanto mais abalo recebem, e confundem a posse com a agitação obscura e passiva dos sentidos inferiores. No entanto, as percepções da vista não são destinadas apenas a nos revelar objetos distantes, que nos darão, quando estivermos perto deles, prazeres mais sólidos. Elas não são apenas promessas, sinais precursores. Elas nos dão do universo um conhecimento mais puro, mais delicado e mais pleno do que as outras percepções. Podem desprender-se das paixões da carne. Apresentam-nos o mundo numa luz tranquila e bem-aventurada. Assim, amar é desejar, do objeto amado, uma visão cada dia mais ampla, mais exata e mais penetrante, uma visão que nada deixaria escapar.
Mas isso não é senão um símbolo sensível do amor verdadeiro. Pois não é o corpo que se ama, e sim o ser espiritual, um ser que não se vê. Como, no entanto, não se pode amar um objeto que se ignora, não se ama senão a sua ideia. Mas é precisamente esse o único amor em que quem ama pode esperar obter a posse do objeto amado. Pois o ser reside inteiramente no ato do seu pensamento, e não pode haver intimidade mais estreita do que a de um pensamento e da ideia que ele pensa.
Dir-se-á que essa posse ideal é frágil demais para nos satisfazer, distante demais da posse real? Mas ela é a essência desta, que, sem ela, é ilusória e que a procura sem conseguir sempre encontrá-la. Quando a memória tiver purificado todos os acontecimentos da nossa vida, quando tiver apagado as impressões confusas que experimentávamos enquanto eles se davam, de modo a não deixar subsistir senão o seu significado profundo e secreto, todo o nosso passado nos aparecerá como num quadro, e toda a nossa atividade se terá tornado contemplativa. Ora, para amar de verdade uma pessoa real, é preciso amá-la desde já como gostaríamos de amá-la sempre. É preciso estar unido a ela espiritualmente. É preciso que o nosso amor já não possa variar com o estado do nosso corpo ou com os movimentos imprevisíveis do nosso amor-próprio; e, para isso, é preciso considerar — como se ela estivesse morta — apenas essa ideia dela, mais verdadeira do que ela mesma, que, quando a própria presença dela nos é dada, é a única a nos revelar o seu ser verdadeiro.