Capítulo IX. O amor
6. Silêncio da intimidade.
Há em nós uma zona de silêncio em que se encerra uma parte da nossa vida interior, seja porque não queremos deixar ninguém penetrar nela, seja porque sentimos uma impotência para fazê-lo; ela marca o limite do nosso amor.
Mas há também, no fundo de cada um de nós, um poço de silêncio à beira do qual nem mesmo ousamos nos inclinar sem a presença do amor.
A intimidade, é verdade, nem sempre é efeito do amor; muitas vezes acontece que o precede. Às vezes ela faz nascer o amor sem que se tenha pensado nisso. Ela pode aumentar indefinidamente um amor humilde e tímido. Mas o amor no qual pusemos toda a nossa confiança nem sempre resiste à intimidade.
Há um amor tão perfeito que nos permita dizer sempre em voz alta tudo o que dizemos em voz baixa? Mas pode-se pensar que o papel do amor é, antes de mais nada, mudar a natureza de tudo o que dizemos em voz baixa. E esse é, sem dúvida, o sentido do amor mais perfeito, que é o amor de Deus.
A distinção entre o que dizemos em voz alta e o que dizemos em voz baixa é a medida da nossa separação e da nossa solidão. Assim que a solidão cessou, o amor de si já não faz ouvir uma voz separada. Não é necessário tampouco que falemos sempre em voz alta — como se o que pensamos fosse invisível, ou como se quiséssemos dissimulá-lo parecendo revelá-lo. As nossas palavras mais silenciosas são logo ouvidas pela alma que nos ama; e, como vivemos com ela numa comunicação permanente, essas palavras sempre encontram nela uma resposta, isto é, um eco. O maior benefício do amor é produzir uma purificação da nossa vida secreta, libertando-a dos limites do amor-próprio, e revelar-lhe uma intimidade mais profunda, em que seres diferentes comungam.
Há assim um silêncio da intimidade que é mais pungente do que todas as palavras; pois marca um delicado respeito pela separação material e uma penetração imediata e perfeita entre as almas. As palavras, ao rompê-lo, não apenas pareceriam inúteis e grosseiras, mas nelas se veria o obstáculo mais do que o meio; elas nos lembrariam duramente a nossa dualidade, em vez de aboli-la. Elas nos fariam sentir a presença do corpo, que é preciso esquecer, e feririam o seu pudor.
Na presença do objeto amado, o silêncio vale mais do que a palavra; tem mais riqueza e mais sutileza do que as palavras mais finas. Ele não limita, como elas, o movimento da imaginação. Conserva à comunhão dos seres um caráter puramente espiritual, ao passo que a palavra sublinha a presença do corpo que os separa e, ao afirmar o amor, parece ainda buscar firmá-lo.
É somente no silêncio que o amor toma consciência da sua essência miraculosa, da sua liberdade e do seu poder de intimidade. As palavras destroem a sua penugem e a sua graça sempre nascente. Quem pode duvidar de que, no Paraíso, os espíritos fruam de si mesmos comunicando-se com Deus e com os outros espíritos no fervor de um silêncio perfeito?