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Capítulo IX. O amor

5. Amor e afeição.

Às vezes se fala de amor onde há confiança, retidão, estima e admiração. Esses sentimentos não substituem o amor. Eles não bastam para criar essa comunicação total entre dois seres que já não podem ter segredo um para o outro, que penetram um no outro até o extremo da sua intimidade e confundem o universo com o círculo perpetuamente ampliado da dupla vida interior. Eles deixam a cada indivíduo uma consciência de si demasiado exata, uma disposição de si demasiado livre. Cada um guarda demasiado nítido o sentimento da própria diferença. Não penetra na consciência do outro; não se deixa penetrar. A afeição que lhe testemunha é sempre regulada pelo juízo. São relações de eleição, mas que reproduzem, com extrema delicadeza, as relações que nos são comuns com todos os seres humanos; são efeitos privilegiados da inclinação comum que os leva uns para os outros e que, em cada caso, deve estar de acordo com a justiça e com a verdade. Levadas ao extremo, o amor parece aboli-las. Pois o que caracteriza o amor é ocupar todo o universo; a afeição mais profunda não ocupa senão uma parte dele.

O esforço generoso que se faz para se entregar a um ser que se estima basta para mostrar que não se trata de amor. E, no entanto, a afeição, a sinceridade mútua, a confiança perfeita que reinam entre dois seres muitas vezes bastam para elevar cada um deles à altura das melhores partes do outro.

Encontram-se certas almas que têm mobilidade, ardor e uma espécie de frêmito contido, que conhecem as aspirações interiores mais poderosas e mais secretas, que parecem buscar uma solidão ambiciosa e negligenciar ao redor de si o curso ordinário da vida, mas que chamam com ansiedade um ser que as pressinta, que penetre na sua intimidade e que abale a sua vida oculta. O seu silêncio é uma espera, e o seu olhar ora se fecha, ora interroga, mal contendo a alegria que já experimentam ao se dar.

Às vezes elas encontram uma afeição um pouco aquém delas, mas sabem fazer dela uma união tão perfeita e tão terna que não lamentam um dom que não receberam; perdem a consciência de que ele lhes faltou. A sua alma guardou os mesmos movimentos, mas a afeição agora lhes permite difundi-los e comunicá-los; e a resposta que recebem, por humilde que seja, basta-lhes para que imaginem ter encontrado o objeto que deveria satisfazê-las. Se o encontro de um verdadeiro amor pudesse fazer reviver nelas a esperança que outrora as enganou, elas já não se perturbariam; pois adquiriram segurança e felicidade bastantes para reter os seus benefícios, derramá-los numa afeição que a princípio parecia tão moderada e, por esse meio, ainda conseguir purificá-la e engrandecê-la.

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