Skip to content

Voltar ao livro

Capítulo IX. O amor

4. O desejo e a posse.

Com demasiada frequência se pensa que o amor é um movimento violento que nos leva a um objeto do qual estamos privados. Confunde-se então com o desejo. Estuda-se de má vontade o amor na posse, como se ele só aparecesse com toda a sua força quando encontra obstáculos que o impedem de se satisfazer. E ainda se imagina a posse como um desejo que sempre se extingue e sempre se reanima.

Mas, se o amor não é nada mais do que um movimento tenso em direção a um fim, assim que esse fim é atingido e ele pode exercer-se sem obstáculo, deixa de existir. Já não tem objeto assim que encontrou o seu objeto. Por isso, o amor é sobretudo perceptível à consciência quando é infeliz, quando é uma aspiração poderosa e insatisfeita. Então aparece em nós uma dualidade violenta entre o que desejamos e o que possuímos; e, nesse dilaceramento de si, revela-se a profundidade da paixão.

Ao contrário, o amor feliz produz um apaziguamento interior, uma harmonia nas almas e uma harmonia entre as almas. Diz-se que elas esquecem o resto do mundo; mas seria mais verdadeiro dizer que se esquecem de si mesmas; pois o mundo inteiro está agora presente nelas, e parece-lhes que, obedecendo à sua lei, contribuem para regular-lhe o curso. Talvez seja verdade que, por fim, já não conservem o sentimento distinto desse amor; mas é porque ele se confunde com o próprio ser delas. Elas repelem a ideia de que nem sempre o conheceram ou de que poderiam um dia ser privadas dele: e é o sinal de que, para elas, o tempo desapareceu.

Para a maioria das pessoas, o amor não se prolonga para além da posse; quando esta está assegurada, faz nascer o tédio, a fadiga e o desgosto. Elas precisam das crises de incerteza e de ciúme para que a sua sensibilidade seja abalada. Buscam amores turvos, que só vivem de esperança e de medo, que se aguçam nos obstáculos e nos quais o desejo é temperado pela impaciência e a posse, pela ansiedade. É preciso muita sabedoria e muita força para preferir um amor constante e pleno, que nos permita desfrutar no presente, sem jamais esgotá-lo, de uma felicidade em que o pensamento do futuro já não suscita nenhum temor que não se transforme em esperança, nem nenhuma esperança que não se transforme em ação de graças. Os que melhor conhecem o amor não são aqueles em quem o desejo é mais forte — pois a posse os decepciona —, mas aqueles que sabem colher, na posse, a colheita mais rica.

Quase todas as desgraças do amor vêm de que é infinitamente mais difícil possuir do que desejar. É a lei do desejo morrer na própria satisfação: ele só morre para renascer e morrer de novo. O amor não conhece essas vicissitudes. Ele renasce incessantemente de si mesmo sem nunca pagar tributo à morte. E, enquanto o desejo corre sempre para a própria destruição, o amor nos introduz na eternidade.

A consciência de si — 4. O desejo e a posse. has loaded