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Capítulo IX. O amor

3. Amor-próprio e amor.

O amor-próprio faz-nos sentir dolorosamente os nossos limites, enquanto o amor sempre nos leva para além deles.

Mas prossegue um debate perpétuo entre o amor e o amor-próprio; e esses dois contrários têm frequentemente o mesmo começo. O amor excita primeiro o amor-próprio; e pode-se até dizer que o desenvolve até o momento em que o faz explodir e o destrói.

A forma mais miserável do amor consiste nesse amor por um outro corpo que não é senão o prolongamento do amor pelo nosso próprio corpo e que desconfia do espírito, ou o odeia, porque o espírito, que une todos os seres, viria perturbar a sua posse solitária. Assim, ele nos separa dos outros seres humanos, aguça, no segredo que estabelece entre nós e o objeto amado, as picadas do amor-próprio, multiplica seus prazeres e suas penas. Não é senão um amor aparente: é o amor-próprio que assumiu outro rosto.

Muitas pessoas não conhecem outro amor. Em vez de exprimir uma renúncia a si e uma união com outro ser no universal, o amor não passa, para elas, de uma aliança entre dois egoísmos a serviço um do outro. Elas tiram proveito até do acordo sutil que reina entre os seus pensamentos, e que não é para elas senão um meio de dar e receber certas carícias imateriais. Seria preciso, então, que o amor fosse ao mesmo tempo um princípio de união e um princípio de separação: ele uniria dois seres apenas para aumentar o seu prazer separado. E suas complacências atentas não teriam outro objetivo senão permitir que cada um deles sinta, com maior acuidade, tudo o que possui.

O amor verdadeiro abole todas as separações. Ele nos apazigua e nos ilumina; estabelece a unidade na nossa alma, unindo-nos a outro ser e, por ele, a todo o universo. Ele se derrama até sobre aqueles de quem deveria separar-nos: de repente nos torna sensíveis à sua humanidade. Nessa intimidade perfeita que fez cair miraculosamente, entre dois seres, as barreiras da individualidade, todos os outros seres podem receber uma acolhida espiritual: tal é a forma visível de um amor feliz e conforme ao seu fim verdadeiro.

Todo ser ao qual nos damos por inteiro, com uma alegria ardente em que a vontade própria já não se faz sentir, deixa de se defender. Todo dom que fazemos de nós mesmos, sem exigir nada em troca, já nos é restituído. Ao renunciarmos a nós mesmos, já não fazemos senão um com o espírito puro: deixamos-lhe o lugar; ora, nele todos os seres particulares encontram acesso e comungam. Eles interrompem todos os debates do amor-próprio; e, perdendo o amor-próprio em favor do amor, satisfazem todas as ambições do amor-próprio e as ultrapassam. O amor não pode ser a cumplicidade de dois egoísmos que, isolando-se do mundo, fazem desse isolamento a fonte das suas delícias. Ele dissolve esses dois egoísmos e cria ao redor deles um círculo mais vasto, que alarga sem cessar e no qual o universo inteiro consegue caber.

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