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Capítulo IX. O amor

2. Desenvolvimento do amor.

Muitas vezes se acredita que o amor nasce na alma sem que ela o tenha buscado, como nela nascem as ideias. E, como elas, quando o procuramos, ele parece fugir de nós. Tudo nele se parece com a graça e com a inspiração. Mas talvez a graça e a inspiração se ofereçam a todos, embora haja muito poucas pessoas que saibam acolhê-las. Assim, o amor supõe sempre uma espera e um consentimento interior, bem diferentes desses esforços vãos do desejo que o afugentam acreditando chamá-lo. E, como aquele que espera as ideias com humilde paciência as vê oferecer-se pouco a pouco e travar com ele um diálogo espiritual, aquele que mostra ao amor confiança bastante para não o apressar a vir não se espanta de vê-lo de repente desabrochar no seu coração e despertar um eco.

Pode acontecer que o amor mais forte não seja o que se revela a nós subitamente, mas o que, sem parecer nos consultar, se insinua em nós lentamente, avançando diante dos nossos olhos. O amor que, de um só golpe, atinge o seu ápice logo nos decepciona: passa como o instante que o produziu. É preciso que o amor seja um ato interior no qual o ser inteiro possa, ao se engajar nele, descobrir ao mesmo tempo uma plenitude perfeita e uma virtualidade infinita: então, somente então, ele recolhe em si toda a sequência dos momentos do tempo e penetra na eternidade.

O amor nasce da contemplação do objeto amado; quando a contemplação cessa, o amor também cessa.

A imaginação projeta diante de si a figura do objeto amado, que lhe parece cada vez mais bela. Importa que essa figura se destaque de nós e da nossa felicidade presente, que forme diante de nós um alvo sempre novo que, mesmo na posse, não cesse de recuar e que nunca deixemos de perseguir.

Por isso, não há amor que possa viver e durar se engendra um hábito; pois o hábito engendra a segurança, que nos cega. Só quando essa cegueira se rompe — seja pela traição, seja pela morte — é que se descobre, no hábito quebrado, uma doçura secreta. Mas já não há tempo de saboreá-la: então pensamos no que ela poderia ter sido, mais do que no que foi.

O amor é sempre um ato. E, quando deixa de sê-lo, deixa de ser. Ora, todo ato olha para o futuro e contribui para criá-lo. O amor que não se preocupa continuamente consigo mesmo, em manter-se e crescer, está condenado a desaparecer. O amor se assemelha a um fogo sobre o qual é preciso velar. O vigor da sua chama, o seu brilho e a sua luz dependem dos nossos cuidados. Se o abandonamos a si mesmo, logo não restam senão carvões sobre cinza.

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