Capítulo VIII. Solidão e comunhão
10. Solidão em Deus.
A solidão é semelhante a uma esfera que encerra a alma e a separa de tudo o que é criado. E essa esfera o deixa a sós com Deus. O ser humano vive primeiro no meio de outros seres humanos; mas, quando descobriu o mundo interior, a solidão é para ele como um santuário. Pois só na solidão se conhece Deus e se une a ele.
A solidão é uma imitação de Deus, que é um solitário infinito; ela nos obriga a descobrir em nós uma presença espiritual na qual tudo o que é pode ser recebido.
Quem vive solitário vive em Deus; mas busca também, como Deus, bastar-se a si mesmo. Contudo, o ser finito não pode assim ocupar o lugar de Deus. Dir-se-á que o ser humano mais elevado é aquele que abarca em si o horizonte mais vasto e para quem, por conseguinte, a solidão é mais fácil de suportar? Mas ele não cessa de exalar esta queixa: “Senhor, fizeste-me poderoso e solitário.” E só pode bastar-se no momento em que Deus lhe responde, isto é, no momento em que, não encontrando mais, nem em si mesmo nem em ser algum finito, nada que lhe possa bastar, renuncia a tudo o que lhe pertence e reconhece em si uma presença infinita que é para sempre incapaz de lhe faltar.
Mas o ser humano mais elevado não precisa que a solidão lhe seja imposta para viver solitário. Ele está só em toda parte; apenas, em vez de estar só consigo, está só com Deus. Essa solidão é uma sociedade mil vezes mais íntima e mais fecunda do que a que pode unir-nos a quaisquer seres particulares. E mesmo esta só é possível na medida em que prolonga, manifesta, realiza a sociedade que cada ser tem com Deus. Os que romperam toda comunicação com Deus desesperam na solidão; e são incapazes de criar com qualquer pessoa uma sociedade real que possa romper as barreiras em que todo ser finito se encontra sempre encerrado.
Quem busca a solidão não foge do outro para permanecer a sós consigo; pois sabe bem que não encontrará senão miséria assim que estiver reduzido a si mesmo. Só deseja a solidão porque as uniões que contraiu no mundo lhe mostraram bem depressa os seus limites. O que deseja é a solidão com Deus, isto é, uma união tão interior e tão total com o ser sem limites que todas as uniões que conheceu até então já não sejam para ele senão separações. Assim, o gosto que tem pela solidão é idêntico ao gosto que tem pela perfeição do amor espiritual. Refugia-se na solidão quando as amizades particulares lhe revelam a sua insuficiência. Mas, nesse vazio silencioso da solidão, sua alma é preenchida por um objeto infinito no qual todas as amizades particulares vão buscar a luz que as ilumina e a força que as multiplica.