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Capítulo VIII. Solidão e comunhão

8. Comunhão entre os seres humanos.

Leibniz considerava os espíritos como impenetráveis uns aos outros; mas essa é a lei dos corpos. Os corpos se afastam uns dos outros por sua própria natureza de corpos. Os espíritos se aproximam e se reencontram por sua própria natureza de espíritos, e na medida em que são espíritos mais puros. Cada um deles adquire então mais movimento e mais riqueza. E é tanto mais presente a si mesmo quanto mais comunica com outro espírito, pois então se afasta do corpo, que o leva para fora, e se recolhe ao foco comum que lhe dá, assim como a todos os outros espíritos, a intimidade e a luz. O espírito penetra ao mesmo tempo os espíritos e os corpos: ele é a transparência perfeita, a luz sem sombra e o próprio olhar de Deus presente a tudo o que é.

Ubi sunt duo vel tres congregati in nomine meo, ibi sum in medio eorum, diz o Evangelho. Pois acontece que a solidão nos prende estreitamente demais a nós mesmos. E, quando contamos com ela para obter a vida espiritual, ela muitas vezes só nos traz devaneios individuais nos quais o desejo não cessa de se comprazar. No entanto, é a mesma luz que ilumina todas as pessoas; ela não pertence em particular a nenhuma delas; e o encontro de outro ser humano às vezes nos dá sobre o mundo uma espécie de abertura miraculosa. O assentimento de duas consciências uma à outra, num duplo consentimento à mesma verdade, abole a sua separação. Todo outro entendimento entre dois seres é apenas aparente: não pode ser senão uma satisfação e uma cumplicidade do amor-próprio. Ela isola os indivíduos ao parecer uni-los. As relações com outro ser não têm encanto nem força — não passam de um jogo que logo nos cansa — se não nos permitem estar mais presentes a nós mesmos, exercer nossa atividade interior de maneira mais livre e mais perfeita quando estamos com ele do que quando estamos sós. Elas devem nos tornar capazes de superar todos os alarmes do pudor individual na graça do puro abandono.

É que os seres separados não podem comunicar-se diretamente entre si, mas apenas pelo conhecimento e pelo amor de um objeto que lhes é comum. Só se forma entre eles uma sociedade graças à participação nos mesmos bens, na diversidade das suas vocações individuais. E a alegria que experimentam quando percebem que tinham, sem o saber, os mesmos pensamentos ou as mesmas afeições revela neles uma espécie de identidade, ao mesmo tempo natural e voluntária, que é o princípio da sua segurança e do seu crescimento. É impossível que aquele que desperta para a vida do espírito não busque despertar todos os outros para a mesma vida.

Toda verdade comunicada a outro, segundo Oscar Wilde, diminui a fé que tínhamos nela. Palavra de fraco que só se compraz em si mesmo, que abandona e despreza uma ideia se a vê partilhada e que não tem vigor bastante para se estabelecer numa verdade que o ultrapassa, que só vive por ser recebida e dada.

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