Capítulo VIII. Solidão e comunhão
7. Reserva e abandono.
A comunicação com o outro é tanto mais perfeita quanto faz cessar toda reserva, toda veleidade de se mostrar diferente do que se é, de alterar, ainda que imperceptivelmente, os traços do rosto ou do humor. E o próprio sinal da comunicação realizada é esse sentimento de exata sinceridade, de rigoroso despojamento e de absoluta nudez que faz com que seja quando estamos sós que nos creiamos cobertos por uma roupa, a qual cai assim que o outro aparece.
Mas uma tal comunicação não pode ser nem solicitada nem forçada quando se esquiva, pois então o amor-próprio tomaria o seu lugar. Ela supõe sempre um perfeito abandono e, para que o abandono se produza, é preciso que esteja abolido o apego do indivíduo a si mesmo. Mas não se deve dizer que o abandono é a regra: a regra é a discrição. Ela supõe um respeito infinito pela intimidade de cada ser, e é ela que dá valor ao abandono.
Não se deve oferecer-se aos que se recusam, nem ir além do que podem acolher; ao menos, só se deve propor o dom, e não se humilhar para conseguir que o aceitem. A comunicação entre dois seres é uma graça que lhes é feita, e Deus se lhes revela sem avisá-los, iluminando o encontro, realizando-o e dando-lhe, no entanto, um sentido que o aniquila e o supera. Por isso, quaisquer que sejam as preocupações particulares que os retenham, essa graça não deve ser repelida; não deve ser nem antecipada nem provocada, nem buscada com ardor excessivo. Ela exige um estado de puro consentimento, uma passividade confiante e uma espera bem-aventurada.
Uma comunicação real que uma vez se estabeleceu entre dois seres não pode ser retomada: pois ela os fez tocar a eternidade, que é um ponto de onde não se volta. Às vezes se crê que ela pode ser esquecida, mas é porque não se tinha chegado até ela. Seus testemunhos podem ser suspensos, e acontece que as tarefas diárias a tornem invisível; mas então ela tem apenas uma força mais secreta. Ela reaparece à luz do dia assim que uma nova ocasião lhe permite exercer-se. Ela nos faz remontar cada vez a um princípio que encerra em si efeitos infinitos.
Não há comunicação entre dois seres que não implique, desde o primeiro momento, uma reciprocidade absoluta. Pois só buscamos unir-nos àquele que já nos acolhe, e só podemos acolher aquele que já é um só conosco. O que faz a beleza da comunhão entre dois seres é que cada um deles entra em si mesmo e sai de si mesmo ao mesmo tempo; descobre em si uma riqueza inesgotável que, pela mediação de um ser único, se torna comum a ele e a todos os seres e que cresce sem cessar ao ser partilhada.