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Capítulo VIII. Solidão e comunhão

6. Testemunhas.

A companhia loquaz ou silenciosa de uma testemunha indiscreta ou indiferente pesa, escraviza, prolonga sem fim cada minuto da nossa vida e nos dá o desejo mais agudo de solidão. Mas é melhor ter ao lado alguém que não tenha pensamento algum do que alguém que tenha pensamentos demasiadamente diferentes dos nossos. Pois todo espírito, assim que deixa de estar de acordo com outro espírito, sente-se tolhido no seu movimento próprio e, para mantê-lo, recorre aos auxílios da obstinação e do amor-próprio. Ao contrário, a presença de um espectador sem pensamento pode dar-lhe uma espécie de apoio silencioso, como a imobilidade do que nos cerca sustenta e encoraja todos os nossos movimentos.

Quando a nossa vida está demasiado misturada à dos outros seres, é raro que o nosso pensamento desfrute de perfeita liberdade: não há nem sequer estima, respeito, simpatia que não sejam, para ele, correntes. É preciso uma compreensão muito sutil e muito delicada com um ser para que a sua presença seja, para o nosso pensamento, um aguilhão e não um impedimento. E ainda acontece que tomemos a emulação do amor-próprio por uma comunhão mútua na mesma verdade.

Mas cada um faz os encontros a que tem direito. Há encontros bem-aventurados que nos tornam mais lúcidos do que quando estamos sós. A simples presença de certos seres privilegiados nos obriga, por assim dizer, a nos colocar sob o olhar de Deus. Pois a consciência não se realiza sob a forma mais aguda e mais comovente nem diante do espetáculo da natureza, nem mesmo diante do puro espetáculo de si mesma, mas nesse diálogo angustiante que ela sustenta com outra consciência na qual descobre, de súbito, uma iniciativa que a enche de temor e de esperança, um apelo que lhe é dirigido, uma resposta que lhe é dada, um dom que ela pode receber, um dom que ela pode oferecer.

Mas, se outra consciência permanece diante da nossa como uma pura testemunha, ela quase sempre suspende todos os nossos movimentos: pois reconhecer a nossa presença é amar, desejar e sofrer conosco. Mas, mesmo no amor, que é a forma mais perfeita de toda comunicação entre dois seres finitos, cada um deles deve guardar o delicado sentimento da sua própria individualidade e do contraste que o opõe ao outro, para que o amor não cesse de fornecer a passagem e de preencher o intervalo.

O pudor e a simpatia nos impedem de mostrar penetração demais na observação, seja dos corpos, seja dos sentimentos. Toda penetração é uma ferida. Vê-se assim pessoas sensíveis demais que não ousam levantar os olhos para o outro porque têm timidez e uma certa bondade temerosa. Sabem que o olhar é sempre agudo e cruel; mas esquecem que a sua penetração, quando vai longe o bastante, também cura as feridas que faz. É preciso que ela atinja primeiro o indivíduo até a sua raiz: então, dilacera a própria carne do amor-próprio. Mas vai além do indivíduo; pois há no olhar toda a generosidade, toda a doçura da luz. Ele se torna então uma presença ativa e benfazeja que só reconhece a separação entre os seres para produzir entre eles uma comunhão cheia de amor.

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