Capítulo VIII. Solidão e comunhão
5. Separação.
Às vezes, na comunicação que buscamos ter com os outros seres, chega um momento em que vemos de súbito que ela se recusa, seja por culpa nossa, deles ou da própria natureza. Então, para não a converter em ódio ou em guerra, é preciso saber interrompê-la e reservá-la. Nunca se deve pedir a um ser nada que ele não seja capaz de dar, nem oferecer-lhe nada que ele não seja capaz de receber. Do contrário, nós o repelimos.
Todos devem ser, uns para os outros, mediadores. Nunca se deve recusar a ser, para o outro, esse mediador que ele espera, que o revela a si mesmo, que o eleva incessantemente acima do seu estado presente e multiplica nele os motivos de confiança e de alegria.
Mas nada é mais delicado do que obter, entre dois espíritos, uma comunicação real; se ela se mostra impossível, não se deve forçá-la. Pode acontecer que seja uma forma de cortesia e de caridade saber abster-se. Não se deve buscar esse contato a qualquer preço, pois o esforço que se tenta para criá-lo quando ele se recusa, a perda da inocência na oferta que fazemos de nós mesmos, uma segunda intenção e como uma preocupação com o êxito nos gestos que fazemos e nas palavras que pronunciamos, bastam para corromper toda a empreitada. Quando uma comunicação se produz entre duas consciências, ela é sempre, para cada uma delas, surpresa e maravilhamento; mas é a posse de um bem a que só chegamos porque não o quisemos. Pois é ainda o amor-próprio que o quer; ora, é preciso justamente que o amor-próprio renuncie a si mesmo e cesse por completo de agir para que essa comunicação seja possível: ele pode pretender a ela, mas não produzi-la nem desfrutá-la.
Nenhuma comunicação deve ser tentada quando sentimos de antemão que ela será repelida. Nasce então em nós uma timidez que não é apenas um efeito do amor-próprio, mas do próprio respeito que temos pelos sentimentos que estávamos prestes a entregar e que são seres frágeis que não queremos expor ao atrito e ao desprezo. Procuramos poupá-los de uma má acolhida, e não queremos que se rejeitem esses hóspedes enviados por Deus e que tornam sensível a sua presença entre nós. Ao expor um tesouro tão precioso diante de olhos indiferentes ou hostis, viola-se um segredo, corrompem-se as coisas santas. Aqueles que agora o veem a descoberto e que não souberam reconhecê-lo estavam mais perto de vê-lo quando não o viam. No máximo, é preciso deixá-lo pressentir, para atrair sobre ele a atenção e o desejo, e saber esperar, para revelá-lo, o momento em que a consciência está em estado de acolhê-lo e de ser tocada por ele. A solidão mais dolorosa é a que se segue a uma comunicação fracassada.