Capítulo VIII. Solidão e comunhão
4. Ser o mesmo na sociedade e na solidão.
Não se deve procurar um meio-termo entre a solidão e a sociedade; é preciso saber reuni-las, levando, por assim dizer, cada uma delas até o último ponto: a perfeição da solidão e a perfeição da sociedade se confundem. Mas, para isso, é preciso ser o mesmo na solidão e na sociedade, mostrar na sociedade apenas a sua essência solitária e fazer da solidão uma sociedade espiritual com todos os seres. Mas a maioria das pessoas é igualmente incapaz de viver em sociedade e de viver em solidão. Pois precisam da sociedade, mas para nela alimentar o amor-próprio; e levam para a solidão apenas a lembrança dos favores e das feridas que devem à sociedade. Assim, são incessantemente lançadas de uma a outra e não suportam nem uma nem outra.
Entretanto, quem procura romper a solidão porque já não a tolera percebe depressa que não consegue. Pois quem desejaria a companhia de alguém que só busca os outros porque é um peso para si mesmo? Quantas pessoas, com efeito, são antes de tudo os carrascos de si mesmas! E como aquele que faz a sua própria infelicidade poderia fazer a felicidade do outro? Só se sabemos desfrutar da solidão é que os outros poderão desfrutar da nossa companhia.
A sociedade que formamos com as outras pessoas não é senão o prolongamento da sociedade que formamos conosco. Estamos perpetuamente em guerra ou em paz com elas como o estamos conosco. E sentimo-nos perto das outras pessoas quando estamos perto de nós mesmos, e longe delas quando estamos longe de nós mesmos. O ocioso não tem contato consigo: aborrece-se quando está só; mas também não tem contato com o outro, que permanece para ele um estranho que ele observa com uma indiferença misturada a um pouco de inquietação. Ao contrário, quando a nossa atividade se exerce com confiança e com alegria, ela preenche toda a capacidade do nosso espírito: então já não podemos estar separados de nós mesmos, embora já não façamos esforço para nos recolher, e estamos inteiros no acontecimento ou no próximo, embora já não façamos esforço para ir ao encontro deles.
Assim, é o mesmo princípio que anima a nossa vida solitária e a nossa vida no meio das pessoas. Estabelece-se entre elas e nós uma espécie de intercâmbio semelhante ao que temos conosco. Nossa consciência é uma espécie de sociedade invisível que sustenta entre nossos pensamentos o mesmo diálogo secreto que ela não cessa de prosseguir, na sociedade exterior e visível, com os outros seres.
Mais ainda: a relação entre solidão e sociedade é tão estreita que parece que só podemos dar-lhe pleno sentido permanecendo sempre solitários na sociedade e, no entanto, formando consigo uma constante sociedade espiritual. Talvez não seja necessário separar com tanta rigidez como às vezes se propõe os períodos de isolamento e os períodos de vida comum. Pois aquele que não se deixa distrair da solidão, mesmo no coração da multidão, mesmo na presença do melhor amigo, que guarda sempre a posse de si mesmo e a lucidez do olhar interior, habita perto de uma fonte viva de que todos os seus atos e pensamentos se alimentam; e ao redor dele não percebe senão apelos que o pressionam a fazê-la jorrar e a derramá-la.