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Capítulo VIII. Solidão e comunhão

3. A solidão nos julga.

O gosto da solidão nem sempre é sinal de um gosto pela vida espiritual: frequentemente traduz uma suscetibilidade um tanto arredia do amor-próprio, a satisfação que se experimenta em ficar só, em não mais se deixar desviar de si, em abandonar-se às próprias lembranças ou aos próprios sonhos com complacência ou com amargura. Nos casos mais favoráveis, essa separação que consiste em manter-se longe das pessoas e abster-se do seu contato, com medo de que ele possa nos distrair ou nos manchar, não é senão um momento da virtude: é necessário para que possamos nos purificar e nos recolher na presença de Deus; mas não podemos fazer dela um estado sem que nosso amor-próprio procure nela o seu triunfo e nossa preguiça o seu deleite.

Ninguém fará jamais nada de grande no mundo se não puder primeiro recolher-se em si mesmo, fechar-se numa solidão perfeita como numa casca dura em que descobre o germe do próprio crescimento, o segredo da sua força e do seu destino. É preciso reunir, experimentar e amadurecer todas as potências do seu ser oculto antes de mostrá-las à luz do dia. Uma vez reduzido a si mesmo e privado de todo apoio exterior, o ser humano é obrigado a evocar todas as suas potências espirituais para não perecer de desespero. Assim, a solidão, sobretudo se ele é capaz de mantê-la no meio das outras pessoas, só pode engrandecê-lo. Na sociedade, basta-lhe deixar-se levar para ter a ilusão de agir; e acontece que a falsa grandeza lhe dá mais contentamento do que a verdadeira. Mas a solidão, ao libertá-lo de todas as solicitações exteriores, o reconduz ao centro de si mesmo e faz nascer nele mil forças desconhecidas e miraculosas que, para ele, mudam a figura do mundo e o colocam à altura do seu destino.

O valor de um ser humano mede-se pela capacidade de solidão que subsiste nele, mesmo no meio da sociedade, e pelo ardor interior que a alimenta. Toda a nossa força, toda a nossa alegria nascem da solidão, toda a nossa riqueza também, pois nada é nosso senão o que ainda é nosso quando estamos sós.

Assim, a solidão nos julga: alguns a consideram um abismo, outros um refúgio. Para uns, ela é um estado profundo e feliz que nem sempre conseguem obter; para outros, um estado doloroso e trágico que jamais conseguem superar.

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