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Capítulo VIII. Solidão e comunhão

2. Claustros.

A fundação dos claustros exprime menos a necessidade de erguer uma barreira entre o mundo espiritual e o mundo material do que a necessidade de opor a uma vida que nos foi proposta por Deus e que está cheia de dificuldades e de provas que não escolhemos, uma vida que nos parece mais simples e mais perfeita, mas que obedece a regras que nós mesmos nos impusemos.

Não se deve aprovar, na fundação dos claustros, nem a vontade de separação entre o temporal e o espiritual, nem o desejo de se subtrair às exigências da existência mais comum, nem a tentação de impor a si mesmo novas exigências que pareçam mais duras ou mais oportunas. Os claustros pretendem realizar na terra uma imagem visível da vida espiritual. Mas é preciso preferir à solidão dos claustros todos os encontros que Deus põe em nosso caminho, numa sociedade mais aberta em que todas as existências se misturam. Cada um aí realiza sua vocação interior por vias mais profundas e mais verdadeiras.

A solidão do claustro é um símbolo imperfeito da solidão da alma; e os que não encontraram esta no mundo não a encontrarão no claustro. Os que se deixam dissipar pelo mundo encontram, na solidão, uma imaginação que os dissipa ainda mais. E, quando não têm o pesar do que perderam, abandonam-se ao tormento de não encontrar o que vieram buscar. Os únicos que podem tirar proveito do claustro são os que não precisavam do claustro.

A vida monástica é cheia de grandeza e de deleite, mas de uma grandeza e de um deleite que podem ser os do amor-próprio. E é, sem dúvida, contra o amor-próprio que se travam no claustro as lutas mais dolorosas. Pois nada é mais difícil, na solidão, do que discernir a voz de Deus da voz do indivíduo. E acontece que aquele que crê entrar no claustro apenas para renunciar ao amor-próprio não busca no claustro senão alegrias de amor-próprio mais violentas e mais sutis. Ele foge para escapar ao peso da miséria visível; mas impõe a si mesmo uma miséria de imaginação; e a amargura que ali sente não é nada mais do que o remorso da sua evasão.

É um ato desumano retirar-se da sociedade para, na solidão, desfrutar de si mesmo e de Deus apenas pela meditação. A solidão espiritual não exclui a sociedade; ela a chama; é, por assim dizer, a sua forma ideal: é a ideia de uma sociedade perfeita que é preciso levar para o meio das pessoas, para que todos possam nela entrar.

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