Capítulo VIII. Solidão e comunhão
1. Amor-próprio e solidão.
Nem todos os seres humanos são capazes de fazer um bom uso da solidão. Às vezes, ela aguça ainda mais um amor-próprio que a sociedade decepcionou. Alguns, cansados de uma fama que hoje lhes repugna e que não era senão admiração ou desprezo, ambos injustos, refugiam-se numa solidão selvagem, buscando uma tranquilidade que lhes foge, perseguidos, no retiro mais distante, por todos os tormentos da opinião. Para conservar à inteligência o seu fio, à atividade o seu ócio, à felicidade a sua inocência, valia mais a obscuridade com alguns amigos.
Mas pode acontecer que o amor-próprio espere tirar da solidão um proveito mais sólido. Pois, no meio das pessoas, ele nos levava a buscar vantagens ilusórias que nos eram contestadas, enquanto, na solidão, imagina que todas as riquezas do mundo interior lhe serão reveladas como uma espécie de segredo. Mas esses bens espirituais e invisíveis, que crescem ao ser partilhados, não podem servir de pasto ao amor-próprio: ele os afugenta assim que quer pôr a mão neles.
Sempre buscamos na solidão a presença de Deus; mas, se queremos capturá-la, em vez de nos esquecermos nela, ela se retira. Ao menor esforço que fazemos para nos apropriarmos dela, ela nos escapa, e sua própria luz se obscurece. O verdadeiro progresso interior que se realiza na solidão não se reconhece pela alegria que pode nos dar uma contemplação separada, mas por esse despojamento do amor-próprio, por essa irradiação espiritual que nos permitem, quando voltamos ao meio das pessoas, aniquilar entre elas e nós a rivalidade dos interesses e já não sentir senão a comunidade dos nossos destinos.
O amor-próprio torna igualmente difícil ao ser humano viver na solidão e dela sair uma vez que a experimentou. Se lhe é tão difícil viver na solidão, é porque a vaidade o atrai para fora e o dispersa entre todos os objetos que o cercam. E, se lhe é difícil sair da solidão, é porque ele reduz tudo a si e experimenta diante de si um sentimento de orgulho de que só desfruta bem quando está sozinho.
Mas, se pode haver uma solidão que nos aprisiona no amor-próprio, há outra que nos liberta dele. Já se forma nela uma sociedade invisível que nos acompanha por dentro da sociedade visível e a transfigura. O amor-próprio carrega consigo, até mesmo para a sociedade, uma solidão miserável; mas o amor vai buscar na solidão a fonte e já a presença de uma comunhão com todos os seres.