Capítulo VII. Amor-próprio e sinceridade
7. Vida interior e vida aparente.
A vida espiritual começa a partir do momento em que descobrimos que toda a realidade dos nossos atos reside nos pensamentos que os produzem. Então, as aparências deixam de nos satisfazer: por mais que as modifiquemos, nada mudamos nas próprias coisas; nenhum esforço, nenhum artifício pode impedir que elas sejam o que são. Vivemos diante de uma testemunha a quem nada se oculta, muito mais perspicaz do que nós mesmos, e que é o olhar de Deus. Só ele atravessa todas as aparências e revela o nosso ser verdadeiro.
A mentira só é possível porque os seres só podem mostrar aos outros uma aparência de si mesmos. Seria preciso poder mostrar-nos ao olhar de outro ser humano tal como somos sob o olhar de Deus; e o que caracteriza a simplicidade perfeita é abolir toda distinção entre o ser e a aparência; mas só os mais puros conseguem isso. Enganamos os outros ao modificar nossa aparência, que é a única coisa em nós que eles podem conhecer e que está mais diretamente em nosso poder do que nós mesmos; e julgamos que o olhar deles nunca será bastante atento, bastante penetrante, talvez bastante amoroso, para ultrapassá-la.
Mas nos enganamos a nós mesmos como enganamos os outros porque formamos conosco uma espécie de sociedade e também nos exibimos a nós mesmos: só que, aqui, o erro é muito mais grave, pois a realidade acaba por nos faltar quando só temos olhos para o espetáculo. Mas, como nunca enganamos por completo os outros, nunca enganamos por completo a nós mesmos. Apenas aceitamos estabelecer-nos no terreno da aparência e concordar que ela nos basta. A lucidez dos nossos juízos sobre as pessoas mais admiradas, assim que nos aproximamos delas, prova que é muito difícil nos deixarmos enganar. E o esforço que fazemos, por nossa vez, para sustentar o nosso papel prova que é um papel que sustentamos.
Não deve ser possível distinguir entre a nossa conduta privada e a nossa conduta pública. Esta só tem valor se exprime aquela, se dela é a imagem ou o fruto. No entanto, a maioria das pessoas aplica sua vontade à conduta pública: esgota-se em criar para si um rosto emprestado e crê, assim, elevar-se acima de si mesma. Na conduta privada, relaxam e se abandonam; e então se reencontram covardes e miseráveis. Há, porém, alguns muito puros que só são inteiramente eles mesmos na solidão; a vida pública os fere, desperta-lhes o amor-próprio, magoa-os ou os esmaga e faz com que pareçam inferiores a todos os outros, cujos meios de ação e cujos sucessos eles desprezam sem poder igualá-los. Só os mais fortes não fazem diferença entre a conduta privada e a conduta pública.