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Capítulo VII. Amor-próprio e sinceridade

6. Nudez do espírito.

Essa sinceridade aguda — pela qual o eu se torna perfeitamente transparente e que é, ao mesmo tempo, um despojamento da carne e um olhar luminoso de Deus em nós — não é o prelúdio da vida interior: ela já é o seu cumprimento. A sinceridade tem muitos inimigos: a pressa, o medo, a vaidade, o hábito, as solicitações exteriores, o gosto da elegância ou da virtude. Mas o que caracteriza o espírito é colocar-nos na presença de Deus, reduzir-nos a um ato de pura sinceridade. Por isso, a vida do espírito é uma iniciação perpétua e uma purificação perpétua: pois é o ato pelo qual o espírito aprende a encontrar-se a si mesmo, a adquirir essa pureza perfeita que o torna sensível apenas à luz.

A matéria é como uma roupa sob a qual é preciso sentir a presença do espírito como a de um corpo nu. Mas a roupa revela o corpo e ao mesmo tempo o dissimula; tem mais ou menos graça e flexibilidade; presta-se a muitos artifícios. Em alguns, pode chegar a fazer esquecer o corpo, a ser preferida ao corpo e até mesmo fazer as vezes do corpo. Só aqueles que têm o olhar claro e as mãos puras podem penetrar até o corpo.

A maioria das pessoas compraz-se em envolver-se em véus; mas, por mais que os véus mais simples ou mais brilhantes nos seduzam, eles só nos comovem pelo que deixam aparecer do corpo. Cada um de nós traz uma roupa de preconceitos e de amor-próprio, uma roupa que dissimula seu ser verdadeiro e da qual jamais consegue despir-se por completo. E temos sempre medo de abandoná-la, pois ela é feita por mão humana; ela nos protege; cria nossa aparência e nosso prestígio; abaixo dela, quando encontramos o corpo, temos medo dessa realidade tão sóbria, tão suave e tão móvel, tão estranha a todo ornamento, que já não podemos abolir e cuja vista já não suportamos; cobrimo-la quase imediatamente com um tecido, ora rico, ora pobre, e sempre emprestado. Como no corpo só se desvelam as partes pelas quais a vida do espírito se torna visível aos outros seres humanos — a mão e o rosto —, é preciso manter secretas todas as partes da vida interior que traem a presença do indivíduo e do corpo.

Compreende-se por que todo conhecimento parece tão cruel. Basta que eu olhe outro ser humano com penetração demais, sem que haja em mim o menor movimento de amor-próprio ou de ódio, para que ele se sinta ferido, violado no coração mais íntimo de si mesmo. Ele só consente em revelar o que é através de um véu, e não quer acolher em sua carne o vivo clarão da luz sem que ele seja suavizado por uma penumbra.

Mas esse olhar que o desnuda não deve deter-se na forma individual do seu ser, que o torna sempre envergonhado e miserável. É preciso que, ao revelar o segredo do outro, entreguemos também o nosso. É preciso sobretudo que o nosso olhar testemunhe um chamado de simpatia tal que dê àquele a quem se dirige coragem bastante para se ver, ardor bastante para procurar superar-se, confiança bastante para querer penetrar conosco num mundo simples e verdadeiro, onde nenhum ser tenha mais véus.

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