Capítulo VII. Amor-próprio e sinceridade
5. A sinceridade.
A sinceridade mais perfeita encontra-se ao mesmo tempo nas almas mais humildes e nas maiores, o que prova o parentesco entre a humildade e a grandeza. É o amor-próprio que destrói a sinceridade; mas a humildade não permite que o amor-próprio nasça, e a grandeza o abole.
Seja que a verdade nos humilhe, seja que nos eleve, só se deve falar de si — e até mesmo pensar em si — com muita reserva e delicadeza. Do contrário, a verdade é uma impudência ou uma complacência do amor-próprio. A sinceridade interior é sutil e cheia de perigos. Falha-se nela, como fazem alguns escrupulosos, ao dar relevo demais a certos pensamentos secretos que ainda não são tentações e aos quais o espírito não deu o menor consentimento. Sem dúvida, eles traçam em nós um sulco leve que basta para que não possamos negá-los por completo; e, no entanto, não são atos que nos comprometam, nem sequer, a rigor, desejos que nos seduzam; são possibilidades que apenas entreveemos, apelos aos quais ainda não respondemos. Mas, já ao considerá-los de perto demais, ao fazê-los subir aos lábios para confessá-los, damos-lhes uma consistência que eles não tinham naquele fundo turvo e misturado em que todas as potências da natureza humana começam a se formar e ainda lutam pela existência. Não se deve deixar que uma sinceridade exigente demais os ilumine com uma luz viva demais e, ao revelá-los, os faça penetrar em nós de surpresa, antes mesmo de nos terem pertencido. Não somos responsáveis por todos os nossos pensamentos, e os piores são às vezes um sinal de riqueza; mas somos responsáveis por nos comprazermos neles, por preferi-los a outros, por procurar evocá-los e por lhes dar, pelo simples movimento da atenção, um começo de realidade.
As almas mais ternas e mais delicadas alcançam mais facilmente a sinceridade consigo do que a sinceridade com o outro; pois temem a crueldade das palavras e até a do olhar. E, no entanto, essa sinceridade em relação ao outro é a imagem e a sequência da outra; apenas deve ser cheia de discrição e de amor: é um dom que não podemos recusar ao outro sem lhe mostrar indiferença ou desprezo. Ela não é apenas uma simplicidade pura de todo interesse; marca a confiança que temos em outro ser e a estima em que o temos. Só nos satisfaz plenamente se não guarda nenhuma reserva; mas não há, sem dúvida, inteligência bastante clara e bastante segura de si para esperar consegui-lo: é preciso, para isso, todas as forças do amor e a profundidade de uma comunhão entre dois seres que ultrapassa ao mesmo tempo o poder da inteligência e o do querer.